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Outro recurso argumentativo empregado na construção dos...

Para responder às questões de 01 até 10, baseie-se no texto abaixo.


Texto 1


Ascensão dos charlatões


Vivemos numa era de charlatões? Já se disse muitas vezes que escritores possuem sensibilidade particular para as mudanças culturais de seu tempo. Portanto, a publicação em língua inglesa, nos últimos anos, de dois romances intitulados Charlatans – um de Robin Cook, outro de Jezebel Weiss – pode ser um sinal de alerta de que isso esteja acontecendo. Talvez esses livros sejam um aviso para que tomemos cuidado com esses indivíduos que, em número crescente, prometem o que não podem cumprir, arrogam-se qualidades que não possuem ou oferecem produtos nada confiáveis, como notícias falsas, remédios suspeitos e trapaças online. A lista desses mestres da ilusão (para usar uma expressão bem-educada) pode incluir também alguns evangelizadores, curandeiros e políticos, bem como, convém não esquecer, certos intelectuais.

O que explica a proliferação dos charlatões em nosso tempo? Uma das respostas possíveis é que ela resulta das pressões e da sedução exercidas pelos meios de comunicação, sobretudo a televisão e as redes sociais. Mas em que medida essa tendência, essa “charlatanização” da vida pública (para cunhar, agora, um termo pesado) deve nos alarmar?

Para um historiador como eu, o que experimentamos hoje parece o episódio mais recente de uma história bem mais longa de indivíduos que estão conscientemente enganando outros ou iludindo a si próprios. Os gregos antigos tinham uma palavra para esse tipo de pessoa, kopidos, que significa “impostor”. Sócrates afirmou que os sofistas de sua época, que declaravam possuir conhecimento de tudo (e cobravam por seus cursos), eram impostores. Antes deles, Pitágoras, que, além de matemático, era também uma espécie de guru, já havia sido descrito por outro filósofo como “o príncipe dos impostores”.

Na Itália renascentista, a palavra “charlatão” era empregada para descrever os vendedores de remédios falsos que praticavam seu comércio nas praças públicas, como a Piazza San Marco, em Veneza. O termo utilizado em italiano para caracterizá-los, ciarlatano, derivava de ciarlare, “tagarelar”, já que as vendas de seus remédios “milagrosos” evidentemente dependiam da eloquência e do carisma do vendedor.

Na fronteira entre religião e medicina, Peter Popoff, pregador e curandeiro teuto-americano ativo desde os anos 1970, afirmou certa vez que todo aquele que fizesse doações à sua igreja receberia um crédito de Deus em sua conta espiritual. Disse ainda que Deus lhe revelava os nomes e as enfermidades das pessoas presentes a seus cultos, a fim de que ele pudesse curá-las. Por ironia, seu método – um fone de ouvido por meio do qual a esposa lhe soprava a informação – foi revelado por outro ilusionista profissional, um mágico chamado James Randi.

Acadêmicos e intelectuais muitas vezes desmascararam charlatões, em cujas fileiras, entretanto, podem ser encontrados representantes das duas espécies. Tanto quanto sei, o primeiro ataque a um colega acadêmico desse naipe foi feito por Descartes e tinha por alvo o polímata jesuíta alemão Athanasius Kircher (1602-80).

Em 1715, um catedrático alemão, Johann Burchard Mencke (1674-1732), publicou um livro com o chamativo título de A Charlatanice dos Sábios. Versão impressa das aulas proferidas pelo autor na Universidade de Leipzig, a obra oferece um relato vívido e hilário de como professores fazem propaganda de si mesmos e vendem seus produtos intelectuais valendo-se de métodos que são empregados ainda hoje, entre os quais trajes incomuns, títulos pomposos para si próprios e para seus livros, ataques violentos a outros acadêmicos e o hábito de dedicar suas obras a pessoas importantes. Tenho, no entanto, de admitir que esse livro, ainda que agradável, desperta a indelicada suspeita de que o próprio autor não estivesse inteiramente livre do vício que criticou de forma tão memorável. Afinal, o que venderia mais numa cidade universitária do século XVIII do que uma obra sobre a charlatanice dos eruditos?

Peter Burke, publicado em Revista Piauí / Edição 176, maio 2021e coletado de https://piaui.folha.uol.com.br/materia/ascensao-dos-charlatoes/ Acesso em 11 de maio de 2024.

Outro recurso argumentativo empregado na construção dos sentidos do texto são as aspas. Assim, no emprego de aspas no termo “já que as vendas de seus remédios “milagrosos” evidentemente dependiam da eloquência e do carisma do vendedor.”, tem-se o objetivo de promover o (a)


A

imposição de uma opinião inferível na frase anterior.


B

padronização disfórica da atitude daqueles que se arrogam eruditos.


C

sarcasmo ao trabalho dos comerciantes que anunciavam os seus produtos.


D

contraposição da caracterização do termo modificado por esse vocábulo.


E

denotar as promessas não cumpridas por parte dos comerciantes italianos.