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Em crônicas, é comum o autor interromper a narração ou...

Leia os textos I e II a seguir e responda às questões de 1 a 10.


Texto I


1 Áudios


2 Gravar áudios por WhatsApp virou um hábito tão demonizado que criaram um

3 dispositivo para dobrar sua velocidade. Quem grava se esforça para se expressar com

4 clareza, enquanto quem escuta ignora a dedicação e dispara o acelerador: vamos lá, não

5 tenho o dia todo. Ser chique é ser civilizado, como nos ensinou Gloria Kalil. Eu nunca

6 acelero áudios. Escuto no tempo regular e com um prazer quase sexual. Tenho fetiche em

7 voz. Dois minutos, três minutos, acho pouco, é uma rapidinha. Quero mais. Aproveite-se de

8 mim — só não esqueça que, para chatices, a tolerância é de 30 segundos.

9 Tenho um defeito grave que já foi pior, hoje está mais controlado: a ansiedade, às

10 vezes, me faz interromper a fala do outro, ainda mais quando ele é lento e as palavras lhe

11 fogem com frequência irritante. Ele fica ali tentando encontrar um determinado verbo e,

12quando dou por mim, já estou completando a frase dele. Mesmo que eu acerte a palavra

13 que ele buscava, não é uma atitude elegante. Não é bonito. Pois os áudios me livraram

14 deste constrangimento.

15 Calada, escuto até o fim. Com interesse. Sem chance de interromper. Se a pessoa

16 não encontra o verbo que deseja, aguardo. Que alegria quando, depois de hesitar, ela diz

17 exatamente o que eu sabia que ela ia dizer. Sem eu ter me intrometido. Gloria Kalil, é o

18triunfo da civilidade, não é? Temos que treinar para agir assim presencialmente, eu sei. Pois

19 é disso que se trata: áudio é treino, jogo é jogo.

20 Tenho duas grandes amigas que devem estar às gargalhadas lendo este texto.

21 Shayla mora em Londres e conhece mais da minha vida do que as amigas locais. Na

22 impossibilidade de ela e eu sairmos juntas, a gente se “encontra” em áudios de 9 minutos,

23 quando são curtos. Geralmente extrapolam os 14, 16 — é uma palestra TED exclusiva,

24 recheada de intimidades e filosofices. Eu deveria pagar consulta à Shayla, tanto ela me

25 ilumina e diverte ao mesmo tempo. Resta eu recompensá-la enviando um áudio ainda

26 maior, e assim, competindo pela palestra mais longa, a gente nutre essa relação que, sério,

27 daria um livro muito bom se transcrita.

28 O mesmo acontece com a Marcia, que mora em Lausanne, dona de uma voz que

29 me faz duvidar se sou hétero mesmo: tonteio, de tão sexy. E o que essa voz diz é ainda

30 mais apaixonante. Minha teoria: áudios de WhatsApp revelam verdades de confessionário.

31 A pessoa fala, antes de tudo, consigo mesma, inspirada pelo silêncio, já que o outro só vai

32 escutá-la depois que terminar sua aula de ginástica ou o que estiver fazendo. Quanto aos

33 áudios profissionais, também não costumo acelerar, desde que não abusem. Caso você

34 não seja a Shayla ou a Marcia, não tiver intimidade comigo e o assunto não for do meu

35 interesse, 30 segundos, ou adeus, civilidade.



MEDEIROS, Martha. O Globo, 30 de junho de 2024



Texto II

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Disponível em: https://pt.linkedin.com/pulse/estamos-trocando-conversas-por-mon%C3%B3logos-causa-do-uso-f%C3%A1bio-di-renzo. Acesso em: 20 ago. 2023.

Em crônicas, é comum o autor interromper a narração ou desviar-se do fluxo narrativo para expressar avaliação ou fazer adendos. Essa estratégia NÃO expressa a voz da cronista em:


A

“Gloria Kalil, é o triunfo da civilidade, não é?” (linha 17 e 18)


B

“...a gente nutre essa relação que, sério, daria um livro muito bom se transcrita.” (linhas 26 e 27)


C

“Aproveite-se de mim — só não esqueça que, para chatices, a tolerância é de 30 segundos.” (linhas 7 e 8)


D

“...enquanto quem escuta ignora a dedicação e dispara o acelerador: vamos lá, não tenho o dia todo.” (linhas 4 e 5)


E

“Caso você não seja a Shayla ou a Marcia, não tiver intimidade comigo e o assunto não for do meu interesse, 30 segundos, ou adeus, civilidade.” (linhas 33-35)