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A expressão “media” (grafia do texto), na Baixada Santista...

Leia o texto e responda as questões que se seguem.


27 DE MAIO…


Percebi que no Frigorífico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago. Comecei sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino, marcou-me para passar fome. Catei um saco de papel. Quando eu penetrei na rua Paulino Guimarães, uma senhora me deu uns jornais. Eram limpos, eu deixei e fui para o deposito. Ia catando tudo que encontrava. Ferro, lata, carvão, tudo serve para o favelado. O Leon pegou o papel, recibi seis cruzeiros. Pensei guardar o dinheiro para comprar feijão. Mas, vi que não podia porque o meu estômago reclamava e torturava-me.

Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

A comida no estomago é como o combustível nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei andar mais depressa. Eu tinha impressão que eu deslisava no espaço. Comecei sorrir como se estives0se presenciando um lindo espetáculo. E haverá espetáculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.

Chegou a Radio Patrulha, que veio trazer dois negrinhos que estavam vagando na Estação da Luz. 4 e 6 anos. É facil perceber que eles são da favela. São os mais maltrapilhos da cidade. O que vão encontrando pelas ruas vão comendo. Cascas de banana, casca de melancia e até casca de abacaxi, que é tão rústica, eles trituram. (...) Estavam com os bolsos cheios de moedas de alumínio, o novo dinheiro em circulação.


JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada / edições diversas.

A expressão “media” (grafia do texto), na Baixada Santista, em São Paulo, refere-se a um pão francês (ou pão de sal) de tamanho médio (nem muito pequeno, nem tão grandão). No entanto, a expressão pode se referir a um copo até a metade de café e a outra metade de leite, que é o uso que a narradora faz no texto. Sobre esse uso, assinale a alternativa correta.


A

Trata-se de uma variação regional, dado que a utilização do termo se altera com a mudança de localidade.


B

Trata-se de uma variação social, dado que o termo “media” configura-se como uma gíria própria dos catadores de reciclagem.


C

Trata-se de uma variação histórica, dado que o termo pertence à época específica de escrita da obra, caindo em desuso ao longo dos últimos anos.


D

Trata-se de uma expressão mais formal, empregada pela autora para substituir, no contexto da escrita, o termo “cafezinho” que teria sido utilizado na oralidade.