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No trecho “Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de...

  1. Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu que já não era mais
  2. possível ter alguma coisa. Passaram a "possuir". Também deixaram de fazer. Querem "realizar".
  3. Para essa gente, oferecer, dar, emprestar, nenhum desses atos generosos sobreviveu à mania
  4. contemporânea de "disponibilizar". A língua encheu-se de calos, pela dificuldade de falar palavras
  5. simples e diretas, velhas companheiras — exiladas, agora, por uma inexplicável doença semântica.
  6. A moléstia, contagiosa, é agravada pelos anglicismos selvagens de gente desacostumada a ler
  7. em português, ou exposta em excesso a obras dolorosamente mal traduzidas. Sintomas comuns
  8. dessa necrose linguística são o uso de "escalar", não para montanhas, mas para expressar aumento
  9. ou amplificação de alguma coisa; a manifestação do desejo mórbido de "realizar" no lugar de
  10. "compreender"; a incapacidade paranoica de começar alguma ação sem o anúncio de que vai
  11. "estartar" a pobrezinha. (...)
  12. No país que guarda até hoje traços da Casa grande & senzala, falar enrolado sempre foi um
  13. modo de cobrar distinção. Não à toa, no Judiciário, onde até hoje existe elevador exclusivo para
  14. "eminentes magistrados", a linguagem tortuosa desfila de queixo erguido e peito estufado. É uma
  15. felicidade ver escal..., digo, ganhar impulso o esforço para simplificar a comunicação em lugares
  16. como esse.
  17. As estrepolias beletristas do juridiquês deixam no chinelo a fala empolada, que, hoje em dia,
  18. nunca "usa", só "utiliza", e não desempenha mais, porque prefere "performar". Tribunais gostam
  19. de ser chamados "egrégias cortes", e, ao lhe impor textos incompreensíveis, desculpam-se com
  20. "data vênia" e "elevada estima e consideração". Mas vão além: ao entrar no Supremo Tribunal,
  21. você descobre por exemplo, que chegou, segundo digníssimos advogados, ao "pretório excelso".
  22. Barbaridade. Isso não é nome de alguma entidade mitológica, como o tal do "mesmo", o ser
  23. misterioso citado nas placas de certos corredores, que devemos verificar se está parado, quem sabe
  24. nos espreitando, antes de pegar o elevador. Esse Pretório Excelso existe mesmo, pode perguntar
  25. nos tribunais. E, a depender do que anda fazendo, ele um dia pode botar as mãos em você.


SERGIO LEO. A linguagem performática dos possuídos realizadores. Revista do Correio. 20/10/2024. Disponível em:

https://www.correiobraziliense.com.br/revista-do-correio/2024/10/6964579-cronica-cidade-nossa-a-linguagem-

performatica-dos-possuidos-realizadores.html

No trecho “Ninguém sabe, exatamente, quando uma legião de brasileiros descobriu que já não era mais possível ter alguma coisa” (linhas 01-02), a oração em destaque exerce a mesma função que o termo destacado em:


A

“A língua encheu-se de calos...” (linha 04).


B

“falar enrolado sempre foi um modo de cobrar distinção...” (linhas 12-13).


C

“As estrepolias beletristas do juridiquês deixam no chinelo a fala empolada” (linha 17).


D

“Tribunais gostam de ser chamados ‘egrégias cortes’” (linhas 18-19).