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Leia o texto para responder às questões de números 03 a 08.
Tire a crônica da cartola
De vez em quando preciso ensinar a escrever crônicas. Acho difícil dizer de onde partir, a que se agarrar. Posso começar pela parte teórica, digamos, segundo a qual a pessoa precisa ligar uma antena, um radar, dentro de si, e ser observadora. Observar quer dizer estar atenta a muitas coisas, todo o tempo, e distraída de outras.
Uma vez, ao volante, me distraí do trânsito à minha frente porque fiquei prestando atenção a duas velhinhas gêmeas atravessando a rua. Assisti à cena como se fosse um filme. Elas tinham certa dificuldade de dar passos rápidos e precisos, cambaleavam um pouco, uma ajudava a outra, porque provavelmente uma era mais vivaz do que a outra, se escoravam, falavam alguma coisa que eu não podia ouvir, alguma ranhetice de velhas sem paciência recíproca, mas atravessaram. Nisso, o semáforo abriu e eu fiquei parada, sem saber que meu tempo urgia, até que algum outro motorista tratou de me lembrar, por meio da buzina. Arranquei ainda querendo ver a trajetória das idosas, e um pouco pasma porque só conhecia gêmeas jovens.
Se duas velhinhas gêmeas atravessam a rua em meio ao trânsito caótico da cidade, e fazem isso com alguma dificuldade, quem é que presta atenção? Quão banal isso parece? Onde está a crônica, seu nascedouro, sua gênese?
A meu ver, estava na travessia ranzinza das velhinhas, mas podia estar na buzina e no sinal fechado, na minha própria distração do trânsito. Provavelmente o eventual cronista no carro atrás escreverá um texto em que conta da motorista distraída do carro da frente. Talvez haja alguém na janela de um prédio, vendo tudo de cima, como se fosse uma águia. Ou quiçá uma das velhinhas, a cronista (a menos ou a mais vivaz delas?), resolva chegar em casa, abrir as janelas, ligar um computador já velho e escrever uma crônica sobre o que é estar idosa e atravessar uma rua movimentada na cidade, como os motoristas são mal-educados, as buzinas e a irmã, que já dá muito trabalho. E talvez fosse nossa chance, leitores de crônicas, de saber mais sobre essas duas mulheres. Não saberemos. Do meu ponto de vista, tudo o que está nelas é só delas. O que estava em mim era uma espécie de assombro, certa empatia, torcendo para que elas chegassem salvas à outra margem.
(Ana Elisa Ribeiro. Rascunho: o jornal de literatura do Brasil. https://rascunho.com.br/cronistas/ana-elisa-ribeiro/ tire-a-cronica-da-cartola/. Adaptado)
Assinale a alternativa em que a introdução de vírgulas no trecho original está de acordo com a norma-padrão de emprego dos sinais de pontuação.
Observar, quer dizer, estar atenta a muitas coisas... (1o parágrafo)
Elas tinham, certa dificuldade, de dar passos rápidos e precisos... (2o parágrafo)
... porque, provavelmente, uma era mais vivaz do que a outra... (2o parágrafo)
... escrever uma crônica, sobre o que é estar idosa, e atravessar uma rua... (4o parágrafo)
O que estava, em mim, era uma espécie de assombro... (4o parágrafo)