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A terceirização da memória
Por Juliana Bublitz
01 Você tem um minuto para responder, sem espiar no celular (não vale trapa__ear):
02 quantos números de telefone sabe de cor? Dois, três? Ou nem isso?
03 Até hoje lembro de direitos da era pré-internet. O contato de casa era 711-3777. O da
04 minha avó, 713-2641. Recordo do som do disco do aparelho girando, levado pelo dedo indicador,
05 e de tagarelar com as amigas de infância, cujos telefones fixos jamais esqueci. Nenhum desses
06 números existe mais, mas seguem guardados como te__ouros arqueológicos inúteis.
07 Naquela época, a gente memorizava tudo. No máximo, consultava uma agenda de papel
08 aos frangalhos, do tamanho da palma da mão, que ficava na mesinha da sala.
09 Aí veio a revolução digital, com Apple, Microsoft e todas as bigtechs. Surgiram o Motorola
10 tijolão, o Nokia tijolinho e o Blackberry com suas teclas mínimas. Em menos de 20 anos, com a
11 chegada dos smartphones e de suas funcionalidades sem fim, as marcas passaram a ser
12 extensões do nosso corpo. Os dispositivos servem até para telefonar, só que hoje ninguém mais
13 precisa disso. Falar para quê
14 A tecnologia mudou o mundo e a forma como nos relacionamos com ele. Tudo ficou mais
15 fácil. Deixou de ser necessário guardar informações “na caixola”, como diria minha avó (aquela
16 mesma, do 713-2641), e passou a ser possível terceirizar a memória. Ganhamos HDs externos.
17 Qual é o sentido de perder tempo memorizando algo, se temos tudo na palma da mão?
18 Hoje, a vida de uma pessoa cabe no celular. A agenda de telefones é só uma gota no
19 oceano de bites.
20 Os contatos estão ali, assim como a conta do banco, a lista do super, o endereço do
21 dentista, a tese de doutorado, as datas de aniversário das pessoas que amamos, o roteiro das
22 férias, o aplicativo de rotas com GPS, os ingressos para o teatro. O que não sabemos (ou
23 esquecemos?) está no Google ou no ChatGPT. Basta digitar e pronto. Resolvido em segundos.
24 O resultado disso é uma vida muito mais prática, mas um bando de gente sequestrada
25 pelo próprio celular, como já escreveu a Martha Medeiros em uma de suas crônicas geniais.
26 Viramos “celular-dependentes”, e a nossa memória também.
27 Dia desses, consegui a façanha de esquecer o aparelho em um veículo da Uber. Percebi
28 segundos depois, quando fui checar as mensagens e quase enlouqueci de mãos vazias. Bateu o
29 desespero. E agora?
30 Não sabia o número de ninguém, não tinha acesso ao Whats, não podia sequer ver as
31 horas nem verificar o e-mail. Para quem ligar para tentar resolver o perrengue?
32 Graças a uma colega que (ufa!) não tinha esquecido o celular no carro, foi possível fazer
33 contato com a empresa e chegar até o motorista. Ele voltou mais tarde para devolver o item
34 perdido.
35 Foram os 45 minutos mais agonizantes dos últimos tempos. E ali percebi meu vício em
36tecnologia. Sem o smartphone, a vida travou, e a terceirização da memória se tornou um
37 problemão.
38 Virou amnésia digital.
39 Sabe o que fiz depois disso? Nada. Ou melhor, fiz, sim: decorei três contatos de pessoas
40 próximas para o caso de emergências. Estou salva. Até ser traída pela memória outra vez.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/juliana-bublitz/ultimas-noticias/ – texto adaptado especialmente para esta prova).
Considerando o fragmento retirado do texto “E ali percebi meu vício em tecnologia”, assinale a alternativa que apresenta a correta classificação da palavra sublinhada.
Advérbio.
Artigo.
Preposição.
Pronome.
Substantivo.