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Em relação à estratégia argumentativa utilizada pelo...

O morador

Por Rubem Braga


  1. De repente me ocorre que estou cansado de morar nesta casa. Durante demasiados anos
  2. vivi de casa em casa, de quarto em quarto, de cidade em cidade, para que não sentisse esse
  3. desgosto sutil de estar parado na mesma esquina, embora quieta, embora boa. Minha vida
  4. aportou aqui sem dizer que ia ficar, tal como a canoa do pescador que para junto a uma pedra,
  5. sem saber se é por meia hora ou pelo dia inteiro.
  6. Aos poucos me levantei. As caras permanentes da rua foram se fixando no fundo de meus
  7. olhos. Um dia encontrei, no centro da cidade, um empregado do armazém da esquina e achei
  8. tão absurdo vê-lo ali como se, entrando em um Ministério eu encontrasse, no gabinete, o gato
  9. ruivo de minha vizinha. Custei a reconhecer a cara familiaríssima do rapaz. Seria, talvez, um
  10. garçom de Belo Horizonte ou o funcionário de um jornal de Porto Alegre... Não consegui
  11. descobrir. No dia seguinte ele passou sob a minha janela, como passa várias vezes por dia, em
  12. sua bicicleta, e tive um sobressalto. Também já me aconteceu cumprimentar, distraído, na saída
  13. de um cinema, uma moça loira de pele muito queimada; cumprimentei-a sem saber exatamente
  14. quem era, mas sentindo que era uma pessoa muito conhecida, talvez irmã de algum amigo. Ela
  15. respondeu de um modo meio reticente, meio surpreso. Fiquei embaraçado. Depois, descobri que
  16. não tenho relações com essa moça, apenas a conheço de vista, da minha rua, onde nunca me
  17. ocorreria cumprimentá-la.
  18. O mecanismo da cordialidade humana não é muito simples. Sempre corro o perigo de
  19. cumprimentar efusivamente, quando encontro, de súbito, um desafeto qualquer: antes de me
  20. dar conta de quem se trata, eu o saúdo porque é uma cara conhecida. Mas, a rua subitamente
  21. me cansa. Parece que sou escravo de seus hábitos. Sei precisamente a hora em que a “vaca
  22. leiteira” aparece e as empregadas das casas saem apressadas, de latas e garrafas na mão, para
  23. a pequena fila de leite; conheço todos os pregões e os carteiros, os meninos que esperam o
  24. ônibus do colégio, o apartamento que fica aceso ao longo das madrugadas. Conheço até alguns
  25. automóveis e os fregueses do boteco perto do mar, o idiota com quem os moleques mexem, a
  26. mocinha tão bonita que de repente ficou magra, triste, esquisita... Sem indagar, sem na
  27. realidade saber o nome de ninguém, vou sem querer considerando tudo isso como parte de
  28. minha própria vida. Seria doce mudar, de casa ou de país.
  29. Sei, por experiência, que tudo isso que parece tão estabelecido em minha vida se diluirá
  30. com facilidade e até o número da casa e do telefone serão esquecidos, e toda essa gente e todas
  31. essas coisas se apagarão em lembranças remotas. Como sempre, voltando um dia por acaso a
  32. esta esquina, é possível que eu tenha alguma saudade, mas bem maior será o secreto prazer de
  33. pensar que me livrei de tudo, das ternuras e aborrecimentos desta rua, que tudo ficou para trás
  34. como uma estação sem interesse, apenas mais uma estação, nesta viagem em demanda de
  35. coisa alguma.


(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/cronicas/20236/o-morador – texto adaptado especialmente para esta prova).

Em relação à estratégia argumentativa utilizada pelo narrador para defender a ideia de que a mudança é necessária em sua vida, analise as assertivas a seguir:


I. Comparação entre a vida monótona na rua atual e as lembranças felizes de outras casas e cidades habitadas no passado.

II. Descrição dos aspectos negativos da rua, como a previsibilidade da rotina e o sentimento de aprisionamento.

III. Utilização de situações que ilustram o apego às relações de intimidade com as pessoas e hábitos locais.


Quais estão corretas?


A

Apenas I.


B

Apenas II.


C

Apenas I e III.


D

Apenas II e III.


E

I, II e III.