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A oração “se não avaliar as demandas, as imposições, as...

Texto para as questões de 1 a 8.


1 Uma sensação difusa, próxima de uma

ansiedade, mas sem objeto, parecida também com o

medo, mas sem causa específica. Uma inquietude

4 metafísica, mas sem linguagem organizada. Nem

bem um pavor, nem bem horror ou terror, mas um

mal-estar, uma falta flutuante, uma ameaça

7 fantasmática e um sobressalto iminente. Eis o quadro

de uma experiência conhecida individualmente e que

hoje se torna um sintoma social. Ele diz respeito a um

10 conceito filosófico fundamental, a angústia.

É a angústia que nos dá a medida da

experiência do sujeito enquanto sujeito humano. No

13 lugar de um “penso, logo existo”, poderíamos definir a

experiência da angústia como aquilo que está no

lugar do pensamento. Como se a angústia fosse o

16 nascedouro da consciência.

Na visão do filósofo dinamarquês Kierkegaard,

a angústia é constitutiva da condição humana. Ela faz

19 parte da vida. Inevitável, ela surge no momento em

que somos confrontados justamente com as

possibilidades da vida, sejam elas boas ou não aos

22 olhos acostumados às sombras das verdades prontas.

A angústia é o efeito do nosso contato com as

possibilidades da vida mais ou menos estreitas

25 conforme as circunstâncias vividas por cada um. Ao

falar de angústia, estamos diante daquilo que nos

oprime, como um canal estreito, um obstáculo a ser

28 atravessado. Tal é a sua etimologia. Mas ela é mais do

que um sentimento, ela é a posição que implica a

percepção, um certo tipo primitivo de saber sobre o

31 caráter absurdo da vida e, no meio dele, a consciência

do minúsculo ser humano lançado entre a potência e

a impotência, o brilho e o apagamento, a grandeza e

34 a miséria de sua própria condição.

Talvez o reconhecimento de que há um destino

para além da vontade humana reposicione o ser

37 humano diante da natureza, da história, do outro e de

si mesmo. Talvez a angústia ceda de sua imobilidade

diante da aceitação da finitude. Mas como aceitar a

40 finitude nesse tempo em que perdemos a capacidade

de meditar sobre a morte e, ao mesmo tempo, tudo

parece tão morto?

43 A angústia nos coloca, portanto, a questão de

nossa presença no mundo. Não se trata apenas da

pergunta pelo que somos, ou o que fazemos, mas o

46 que estamos experimentando. O que recebemos,

damos e “levamos” dessa vida? O que é realmente

importante? O que realmente pode ou deve ser

49 vivido? Como vivemos diante do fato de que estamos

necessariamente relacionados a nós mesmos, além

de estarmos relacionados aos outros e à alteridade

52 como lugar da diferença?

Bem vivida, a angústia é a chance de

estabelecer uma relação autêntica com a gente

55 mesmo. Com o que somos. Ela envolve uma

autopedagogia pessoal.

Nela é que podemos nos perguntar “como me

58 relaciono comigo mesmo?”, que é algo bem mais

complexo do que a crença em um

“autoconhecimento”. É a angústia que pode nos dar

61 as condições de fazer a pergunta “como me torno

quem eu sou?”.

E me faz saber que não posso responder a ela

64 se não avaliar as demandas, as imposições, as ordens

e os modismos que me afastam de mim. É a angústia,

portanto, que me devolve a mim mesma. Que evita a

67 alienação à qual nos convida o nosso tempo.


Marcia Tiburi. O aprendizado da angústia.

Internet: <https://revistacult.uol.com.br> (com adaptações).

A oração “se não avaliar as demandas, as imposições, as ordens e os modismos” (linhas 64-65) classifica-se como


A

concessiva.


B

consecutiva.


C

condicional.


D

causal.


E

conformativa.