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Considere o texto a seguir para responder às questões de nos 7 a 9.
Texto III
OS VENENOSOS
O veneno é um furo na teoria da evolução. De
acordo com o darwinismo clássico os bichos desen-
volvem, por seleção natural, as características que ga-
rantem a sua sobrevivência. Adquirem seus mecanis-
5 mos de defesa e ataque num longo processo em que
o acaso tem papel importante: a arma ou o disfarce
que o salva dos seus predadores ou facilita o assédio
a suas presas é reproduzido na sua descendência, ou
na descendência dos que sobrevivem, e lentamente
10 incorporado à espécie. Mas a teoria darwiniana de pro-
gressivo aparelhamento das espécies para a sobrevi-
vência não explica o veneno. O veneno não evoluiu.
O veneno esteve sempre lá.
Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta
15 pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso
com o tempo, que só descobriu que sua picada era
tóxica por acidente, que nunca pensou etc. O veneno
sugere que existe, sim, o mal-intencionado nato. O ruim
desde o princípio. E o que vale para serpentes vale
20 para o ser humano. Sem querer entrar na velha dis-
cussão sobre o valor relativo da genética e da cultura
na formação da personalidade, o fato é que não dá
para evitar a constatação de que há pessoas veneno-
sas, naturalmente venenosas, assim como há pesso-
25 as desafinadas.
A comparação não é descabida. Acredito que a
mente é um produto cultural, e que descontadas coi-
sas inexplicáveis como um gosto congênito por cou-
ve-flor ou pelo “Bolero” de Ravel, somos todos dota-
30 dos de basicamente o mesmo material cefálico, pron-
to para ser moldado pelas nossas circunstâncias. Mas
então como é que ninguém aprende a ser afinado?
Quem é desafinado não tem remédio. Nasce e está
condenado a morrer desafinado. No peito de um de-
35 safinado também bate um coração, certo, e o desafi-
nado não tem culpa de ser um desafio às teses psico-
lógicas mais simpáticas. Mas é. Matemática se apren-
de, até alemão se aprende, mas desafinado nunca fica
afinado. Como venenoso é de nascença.
40 O que explica não apenas o crime patológico como
as pequenas vilanias que nos cercam. A pura malda-
de inerente a tanto que se vê, ouve ou lê por aí. O
insulto gratuito, a mentira infamante, a busca da noto-
riedade pela ofensa aos outros. Ressentimento ou
45 amargura são características humanas adquiridas,
compreensíveis, que explicam muito disto. Pura mal-
dade, só o veneno explica.
VERISSIMO, Luis Fernando. O Globo. 24 fev. 05.
"Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso com o tempo, que só descobriu que sua picada era tóxica por acidente, que nunca pensou etc." (l. 14-17)
No trecho acima, o cronista faz uso do termo "que", repetidamente.
A passagem na qual o termo "que" apresenta a mesma classificação gramatical daquela desempenhada no trecho destacado é
"as características que garantem a sua sobrevivência". (l. 3-4)
"a arma ou o disfarce que o salva dos seus predadores". (l. 6-7)
"E o que vale para serpentes vale para o ser humano". (l. 19-20)
"o fato é que não dá para evitar a constatação". (l. 22-23)
"A pura maldade inerente a tanto que se vê". (l. 41-42)