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Acerca dos recursos coesivos no texto de Rubem Braga.

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Q3838658
Teclas de Atalhos
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Ano: 2025
Prova: FCC - CGM SP - Auditor Municipal de Controle Interno - Geral - 2025

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 7, considere o texto a seguir.


Passo o dia fazendo uma reportagem, não procuro nem pelo telefone nenhum amigo - e quando anoitece e chego ao apartamento sou um homem só nesta cidade de São Paulo. Ligo para dois conhecidos; nenhum está em casa. Perdi há tempos meu caderno de endereços; não encontro a lista de telefone. Tomo um banho, mudo a roupa e saio sozinho, sem programa, pelas calçadas formigantes deste começo de noite paulistana.

A ideia de entrar em um restaurante e Jantar sozinho me deixa frio. Entro num desses cafés movimentadas da avenida São João, e como um desses pastéis feitos na hora, baratos e quentes com que em outros tempos enganei minha fome, nas noites frias, solitárias e sem dinheiro. Tomo também uma batida, depois peço um sanduíche e mais um pastel e um café; saio para a rua numa vaga noção de estar feliz, andando no meio dessa multidão encapotada que os cinemas de grandes luzes brilhantes vão engolindo em seus enormes ventres negros, onde esses homens e essas mulheres passam duas horas entretidos na mentira de outras vidas em outras terras. Vejo a multidão que sai de um desses cinemas; muitas dessas pessoas se comoveram com a fita, algumas choraram, há famílias enormes que chegam à calçada com um ar desorientado, meio sonâmbulas, e que de repente parecem aflitas de regressar à realidade da rua e de si mesmas, e temem se desagregar no selo da multidão apressada.

Desfilam por mim centenas, milhares de caras, e não conhecer ninguém me dá uma tristeza confortável, essa doçura melancólica da cidade estranha e grande. Entretanto aqui é Silo Paulo, onde tanto vivi. Entro em um bar ao acaso, mas também não vejo nenhum conhecido; e beber sozinho seria mais triste do que tudo. Agora não procuro mais ninguém; estou apenas vagando pelas ruas, integrado nesse fluir infindável de homens - um homem calado no meio deles, um desconhecido entre desconhecidos, apenas amparado por essa vaga solidariedade feita de alguma coisa de frágil e ao mesmo tempo de hostil, de prevenção e de Identidade, que une os transeuntes da mesma rua. E reencontro assim, quase vinte anos depois, mais forte, mais populosa e imponente, a minha São Paulo da vez primeira, onde eu não conhecia ninguém e onde perambulei docemente uma noite inteira, aprendendo a rua com meus olhos e meus pés, gozando devagar o encanto da cidade que escolhera para viver exatamente porque ali não conhecia ninguém.

Mas ouço meu nome; é um amigo que me chama de dentro de um automóvel. Subo ao seu carro, vamos encontrar outros amigos em um bar. Na calçada ficou o fantasma solitário, mas livre e lírico, do rapaz aventureiro de antigamente.


(Adaptado de: BRAGA. Rubem. "o Aventureiro". Rio de Janeiro: Correio da Manhã, 22/7/1952. Disponível em: https://rubi.casaruibarbosa.gov.br)

Acerca dos recursos coesivos no texto de Rubem Braga.


A

o uso contínuo da conjunção e, notadamente no terceiro parágrafo, corrobora o contraponto temporal entre o passado e o presente do cronista, entre a cidade em que escolhera viver e aquela que reencontra.


B

os pronomes esse, essa, este, esta e seus derivados, abundantes no texto, eximem o autor da busca por correlatos dos substantivos a que faz.em referência, garantindo, no entanto, que a coesão mantenha a clareza e o andamento da narração.


C

termos como multidão, coletivo de pessoas, que, por sua vez., é hiperonímia para homens e mulheres, bem como a metonímia caras, favorecem a coesão do texto, além de acrescentar novos matizes de sentido; no caso deste Ultimo termo, destaca-se a parte do corpo pela qual se costuma reconhecer alguém.


D

a subordinação, usa da preferencialmente à coordenação sintática, confere à crônica um caráter poético, uma vez que determina com precisão as relações de sentido entre as orações, exceção feila ao pronome onde, que tende a indeterminar a localização do personagem.


E

os advérbios de tempo contrapõem-se ao uso constante do presente do Indicativo, desenvolvendo uma tensão narrativa rompida apenas pelo desfecho da crônica, com o verbo no pretérito ficou, na última frase.