Imagem de fundo

No texto, a linguagem predominante é a:

1 Como já aconteceu algumas vezes nesta coluna, eu gostaria de começar com um item terminológico meio

2 feioso, mas muito útil. Anote aí, por gentileza: "estímulo supernormal". O termo é usado em áreas como a psicologia

3 ou o estudo do comportamento animal para designar um tipo de estímulo que imita o que podemos encontrar na

4 natureza, mas cuja potência está muito acima do que é natural (daí o uso do prefixo "super").

5 Um exemplo gastronômico: frutas silvestres são um estímulo "normal" quando o assunto é açúcar. Por

6 outro lado, um sorvete de morango com leite condensado definitivamente é um estímulo supernormal, feito para

7 capturar nosso desejo natural de consumir coisas doces por meio de uma bomba calórica que uma planta seria

8 fisiologicamente incapaz de produzir na natureza.

9 Ora, conforme argumenta um novo estudo, o mundo online pós-redes sociais funciona como um

10 gigantesco combo de estímulos supernormais no que diz respeito aos instintos morais da nossa espécie. E o

11 resultado pode muito bem ser o equivalente da diabetes (pensando, de novo, no leite condensado) para as noções

12 de certo e errado de quem fica cronicamente enfiado na internet.

13 É uma perspectiva assustadora, concordo, mas há bons argumentos para enxergar a coisa nesses termos

14 no trabalho recém-publicado por Jay Van Bavel, do Departamento de Psicologia da Universidade de Nova York.

15 Junto com dois colegas, Van Bavel fez uma análise dos dados já disponíveis sobre o comportamento das

16 pessoas nas redes sociais, levando em conta o que sabemos sobre as raízes da moralidade humana. As últimas

17 décadas mostraram que, debaixo das diferenças de usos e costumes mundo afora, podemos enxergar padrões

18 comuns no que diz respeito a esse tema em muitos lugares.

19 Sabemos que as pessoas tendem a valorizar laços de solidariedade e reciprocidade dentro dos grupos

20 sociais aos quais pertencem, a usar a capacidade de empatia para oferecer ajuda a quem necessita e a defender a

21 punição de quem não segue essas regras. Acontece que o mundo das mídias sociais despeja uma torrente desse

22 tipo de conteúdo olhos e ouvidos adentro das pessoas.

23 Isso acontece, em parte, porque gente revoltada e/ou moralmente extremista tende a postar e compartilhar

24 com muito mais frequência informações sobre despautérios reais ou imaginários. Pessoas nesse estado emocional

25 (ou fingindo que assim estão) tendem a monopolizar a conversa online (afinal de contas, gente feliz não fica xingando

26 Deus e o mundo no Twitter).

27 Mas, mais importante ainda, esse tipo de conteúdo gera engajamento (curtidas, compartilhamentos,

28 comentários), e engajamento é o que interessa ao algoritmo das plataformas. Resultado: é isso que acaba sendo

29 entregue para a maioria dos usuários. E o ciclo se reforça.

30 Os possíveis resultados disso não são nada simpáticos. Há indícios de que esse ambiente pode gerar, por

31 exemplo, "fadiga de compaixão" – o mero ato de compartilhar um pedido de ajuda ou doações parece suficiente para

32 o usuário, diminuindo sua necessidade emocional de estender a mão a pessoas reais.

33 Isso talvez explique porque mobilizações em favor de alguma causa que nascem no meio online tendem a

34 ser menos duradouras e a criar menos pressão política do que as que surgem por meios tradicionais, dizem os

35 pesquisadores.

36 Ao mesmo tempo, há a ascensão de "linchamentos virtuais", nos quais é possível fazer ataques virulentos

37 a desconhecidos por supostas transgressões com mínimo risco e custo para quem se arroga o papel de juiz online.

38 O risco aí é não apenas para quem vira alvo desses ataques como também para a comunidade, porque repetidos

39 casos como esses podem facilitar o surgimento de comunidades opostas de quem se diz injustiçado (com ou sem

40 razão), ou até dessensibilizar as pessoas contra a seriedade real de um problema, como o racismo ou a homofobia.

41 O design atual das redes sociais potencializa todos esses problemas. É, portanto, urgente regulá-las, mas,

42 enquanto isso não ocorre, vale uma regra de ouro: nunca se comportar na internet de uma maneira que você não

43 teria coragem de bancar se estivesse cara a cara com quem está falando.


REINALDO JOSÉ LOPES, FOLHA DE S. PAULO,

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/reinaldojoselopes/2024/06/redes-sociais-distorcem-instintos-moraishumanos-e-geram-fadiga-de-empatia-diz-estudo.shtml

No texto, a linguagem predominante é a:


A

fática, porque objetiva iniciar um contato do emissor com o receptor, testando a importância do canal utilizado para enfatizar o aspecto positivo e eficiente da internet.


B

apelativa, visto que procura influir no comportamento do leitor, por meio de apelos, para que avalie a importância do uso racional da internet.


C

metalinguística, em virtude de ter sido utilizada para explicar a si mesma e, sobretudo, evidenciar a dificuldade de definir para o usuário da internet uma maneira correta de uso desta ferramenta.


D

referencial, pois traduz objetivamente a realidade externa ao emissor, ou seja, trata dos avanços obtidos pela internet.