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1 Parece que a sociedade está chegando a um consenso. Pais, educadores, pediatras, gestores públicos, todos
2 percebemos que o excesso de telas, especialmente do celular com seus aplicativos, está provocando danos às nossas
3 crianças e adolescentes.
4 Nossa juventude vive uma crise: perdas no desenvolvimento, dificuldades de aprendizado e atenção, privação de
5 sono, transtornos comportamentais e isolamento. Reportagem recente da Folha, que analisou dados do SUS de 2013 a
6 2023, mostrou aumentos que chegam a estrondosos 1.500% em atendimentos por ansiedade e depressão entre 10 e 19
7 anos, especialmente em meninas.
8 Evidências científicas apontam que, se o uso excessivo das telas não é o único culpado, é um dos principais
9 implicados.
10 Sabemos que redes sociais e outros aplicativos criam mecanismos para provocar dependência, e as crianças são
11 mais suscetíveis. Com isso, elas passam cada vez mais tempo na tela, chegando a 9 ou 10 horas por dia — e começam
12 cada vez mais cedo.
13 A sucessão de conteúdos curtos, publicitários e superficiais as torna consumistas, apáticas, acríticas,
14 desatentas, incapazes de ler. As bolhas de radicalização geradas pelo algoritmo promovem negacionismo científico e
15 climático, intolerância, violência e bullying, e as deixam suscetíveis a fanatismo político e golpes cada vez mais
16 sofisticados.
17 Várias medidas estão em marcha para reduzir o uso de telas pelos jovens. Famílias estão se mobilizando para
18 retardar a entrega do celular. Um guia sobre o uso adequado de telas está sendo criado por especialistas e equipes de
19 sete ministérios. A regulamentação das redes está voltando à pauta.
20 Além disso, muitas escolas estão optando pelo banimento do celular, num movimento que ocorre
21 simultaneamente em inúmeros países, por iniciativa de governos ou de comunidades escolares.
22 A escola é o espaço público primordial da criança, onde ela adquire habilidades fundamentais, como
23 colaboração, foco, resolução de problemas e conflitos, além de ter contato com artes, esportes e cidadania. Um lugar
24 para aprender a pensar criticamente, a se relacionar com o outro, com o coletivo, com o mundo.
25 O óbvio: a mera presença do celular na sala de aula, mesmo na mochila, já perturba a atenção. Estudos mostram
26 um sério prejuízo no aprendizado. Isso não se discute mais.
27 Mas há o precioso recreio. Com as cidades inseguras e crianças confinadas e sem contato com amigos e com a
28 natureza, o pátio escolar se tornou o último reduto da mais essencial atividade da infância: o brincar. E o celular
29 transforma brincadeiras e trocas de afeto em um deserto de imobilidade, isolamento e bullying.
30 A escola, como espaço regulamentado, oferece uma valiosa pausa para viver no mundo real, o que é cada vez
31 mais difícil lá fora. Isso não significa afastar a criança da tecnologia: existem outros meios menos distrativos, mais
32 eficazes e seguros para esse fim. O uso do celular pode ser permitido para alunos que os necessitem por questões de
33 saúde e em alguns momentos, para que a escola cumpra uma função que precisa assumir: a educação midiática. Mas
34 a presença do aparelho no dia a dia não faz sentido.
35 A rede municipal de ensino do Rio de Janeiro foi a primeira a banir celulares, exceto para uso pedagógico
36 autorizado pelo professor. Mais de 650 mil alunos da rede municipal e outros milhares de estudantes em grandes
37 escolas privadas já vivem essa realidade. Os primeiros resultados são excelentes: satisfação de professores, de famílias
38 e até dos alunos, que recuperam o prazer de brincar, interagir e aprender.
39 Está na hora de espalhar essa onda por todo o Brasil.
Daniel Becker e Renan Ferreirinha, Folha de S. Paulo, https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/06/banir-celular-nas-escolasja-trouxe-bons-resultados.shtml
É exemplo de predicado verbo-nominal a oração:
“A sucessão de conteúdos curtos, publicitários e superficiais as torna consumistas” (L.13).
“Várias medidas estão em marcha” (L.17).
“A escola é o espaço público primordial da criança” (L.22).
Mais de 650 mil alunos da rede municipal e outros milhares de estudantes em grandes escolas privadas já vivem essa realidade. (L.36/37).