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TEXTO IV
O ano passado
Erasmo Carlos / Roberto Carlos
O ouro no ano passado subiu sem parar
Os gritos na bolsa falaram de outros valores
Corpos estranhos no ar
Silenciosos voadores
5 Quem sabe olhando o futuro do ano passado
O mar quase morre de sede no ano passado
Os rios ficaram doentes com tanto veneno
Diante da economia
10Quem pensa em ecologia
Se o dólar é verde é mais forte que o verde que havia
O que será o futuro que hoje se faz
A natureza as crianças e os animais?
15
Quantas baleias queriam nadar como antes
Quem inventou o fuzil de matar elefantes?
Quem padeceu de insônia
Com a sorte da Amazônia
20Na lei do machado o mais forte do ano passado
Não adianta soprar a fumaça do ar
As chaminés do progresso não podem parar
Quem sabe um museu no futuro
25Vai guardar em lugar seguro
Um pouco de ar puro relíquia do ano passado
O que será o futuro que hoje se faz
A natureza as crianças e os animais?
30
Os campos risonhos um dia tiveram mais flores
E os bosques tiveram mais vida e até mais amores
Quem briga com a natureza
Envenena a própria mesa
35Contra a força de Deus não existe defesa
O que será o futuro que hoje se faz
A natureza as crianças e os animais
O que será o futuro que hoje se faz
40A natureza as crianças e os animais
(CARLOS, Erasmo; CARLOS, Roberto. O ano passado. Ecra Realizacoes Artisticas S.c. Ltda., Editora Musical Amigos Ltda., Sony Music Publishing).
Considere o conceito de intertextualidade.
Segundo Bakhtin, a intertextualidade pode ser entendida como o princípio de que todo enunciado é dialógico e estabelece uma relação com outros discursos já existentes. Para ele, a linguagem é essencialmente interativa e nenhum texto é autônomo ou isolado, pois sempre carrega ecos, referências e diálogos com vozes passadas e contemporâneas. Assim, a intertextualidade não é apenas uma técnica literária, mas uma característica fundamental da comunicação humana, em que cada palavra está impregnada de outras palavras e significados anteriores.
Considerando o texto IV e correlacionando-o ao conceito descrito acima, assinale a opção em que NÃO ocorreu a intertextualidade.
Os versos “Quem briga com a natureza / Envenena a própria mesa” (l. 33 e 34) estabelecem intertextualidade com o dito popular: “Aqui se faz, aqui se paga”.
O verso “O que será o futuro que hoje se faz” (l. 13, 28, 37 e 39) estabelece intertextualidade com o samba-enredo O Amanhã, da União da Ilha do Governador, apresentado em 1978, nos versos: “O que será do amanhã / Responda quem puder”.
Os versos “Os campos risonhos um dia tiveram mais flores / E os bosques tiveram mais vida e até mais amores” (l. 31 e 32) estabelecem intertextualidade com o Hino Nacional Brasileiro em “Nossos bosques têm mais vida / Nossa vida no teu seio mais amores”.
Os versos “Não adianta soprar a fumaça do ar / As chaminés do progresso não podem parar” (l. 22 e 23) estabelecem intertextualidade com um trecho do Manifesto Antropofágico, de Oswaldo de Andrade (1928): “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago."