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A opção em que todas as formas verbais NÃO apresentam...

TEXTO 3

OBSERVAÇÕES DE UM USUÁRIO

A língua inglesa nunca teve academias

para formular gramáticas oficiais e certamente

seria afogado no Tâmisa ou no Hudson o

primeiro que se atrevesse a tentar impor

05 normas de linguagem estabelecidas pelo

governo. Sua ortografia, que rejeita acentos e

outros sinais diacríticos, é um caos tão

medonho que Bernard Shaw deixou um legado

para quem a simplificasse e lhe emprestasse

10 alguma aparência relacionalmente lógica,

legado esse que nunca foi reclamado por

ninguém e certamente nunca será, apesar de

algumas tentativas patéticas aqui e ali. Ingleses

e americanos dispõem de excelentes manuais

15 do uso da língua, baseados na escrita dos bons

escritores e jornalistas — e, quando um

americano quer esclarecer alguma dúvida

gramatical ou de estilo, usa os manuais de

redação de seus melhores jornais.

20 A segregação racial nos Estados Unidos

produziu um abismo linguístico entre a língua

falada pelos negros e a usada pelos brancos.

Durante muito tempo, a língua dos negros foi

vista como uma forma corrompida ou

25 degenerada da norma culta do inglês

americano. Mas já faz tempo que essa visão

subjetiva e etnocêntrica foi substituída e o

inglês falado pelos negros passou a ser visto

pela ciência linguística como black English,

30 uma língua muito bem estruturada, com

morfologia e sintaxes próprias, com

gramática e sua funcionalidade autônoma, não

mais como inglês de quinta categoria. E essa

visão não foi acatada “de favor” ou para fazer

35 demagogia com a coletividade negra, mas

porque se tornou inescapável a existência de

uma língua funcional, eficaz na comunicação

de informação e emoção e que

precisava, sem que isso fizesse falta, de

40 determinados recursos do inglês dominante.

Todos nós, com maior ou menor

habilidade, falamos várias línguas. Ou dialetos,

dentro da, digamos, língua-mãe. Falamos

língua de criança, língua chula, língua de

45 solenidade. Podemos não chegar a falar todas

as muitas línguas à disposição, mas

geralmente as entendemos, como, por

exemplo, quando ouvimos um caipira. Essas

línguas, em padrões de variedade quase

50 infinita, são todas legítimas, não são "erradas",

pois, em rigor, nenhuma língua “de função

realmente como tal é ‘errada’”. E, muitas vezes,

ao falarmos “certo”, estamos na realidade

falando inadequadamente, como um orador

55 que, num comício no Mercado de Itaparica, se

esbalda em proporções, polissemias e

mesóclises. Eu mesmo falo itapariquês de

Mercado razoavelmente bem e aposto que

vocês, se me ouvissem lá, talvez tivessem

60 dificuldade em entender algo que eu dissesse,

por exemplo, a me ouvir como Xepa.

Cientificamente, a neutralidade quanto a

línguas, dialetos ou usos subsiste. Mas não

socialmente, e é isso o que me parece ainda

estar sendo discutido em torno da propagada

65 aceitação, pelo MEC, de erros de português.

"Erro de português" é uma expressão que

desagrada o linguista, porque ele não vê o

fenômeno sob essa ótica. No entanto, é assim

70 que o enxergam a sociedade e a escola, onde

se aprende pelo ouvido a distinguir o certo do

errado. Isto porque sempre se entendeu no

Brasil que ensinar português é ensinar a norma

que, durante muito tempo, foi até mesmo

75 ditada pelos usos de Portugal.

Quer se queira quer não — há séculos de

formação por trás disso — a norma culta é tida

como a correta e a única que representa

verdadeiramente nossa língua. Sua violação é

80 tolerada em manifestações literárias e mesmo

de modo geral — e, assim mesmo, funciona

mais quando o intuito é obter efeitos cômicos,

ou "folclóricos", com essas violações. As pessoas

costumam observar a adesão à norma culta no

85 que ouvem e leem. Falar e escrever de acordo

com ela é socialmente muito valorizado e

resulta num poder de que a maioria não se

pode se deter tanto e ao qual todos aspiram.

Não é questão linguística, é questão política.

90 Não se trata de dizer aos que desconhecem a

norma culta que a fala deles tem a "mesma

validade". Porque, no adianta, no "colar" na

sociedade. Trata-se de ensinar a esse

participante o domínio da norma culta, a

95 qual, mesmo tendo que absorver mudanças,

nunca abdicará de sua hegemonia e é a de que

ele vai precisar para subir na vida.

Advertir contra o preconceito sofrido por

quem “fala errado” também não adianta nada,

100 diante da força onipresente da norma culta.

(Aliás, no Brasil estamos sempre à frente e

agora legislamos sobre preconceitos e

tornamos ilegal ter preconceitos, quando isto é

praticamente impossível, pois o possível é

105 apenas tornar ilegal a manifestação do

preconceito.) A fala é dos mais importantes

recursos para o que se poderia chamar de

reconhecimento social da pessoa. Vendo

alguém pela primeira vez, fazemos,

110 conscientemente ou não, um julgamento

automático. Apontamos uma ficha mental,

avaliamos a roupa, a idade, o estado dos

dentes e, inevitavelmente, a fala, através da

qual é frequentemente possível saber a origem

115 e a extração social de um interlocutor eventual.

A norma culta, a dominante, a que é ensinada

como correta, mostra sua cara imediatamente

e se reflete logo na maneira pela qual o sujeito

é percebido e tratado. Ferreira Gullar tem

120 razão, a crase não foi feita para humilhar

ninguém. Mas humilha o tempo todo. E agora,

pensando aqui nessa tirania da norma culta,

fico imaginando se ela não é empregada com

esse fim, por certos fiscais dogmáticos. Não

125 devia ser, porque, afinal, ela é necessária para

preservar e aprimorar a precisão da linguagem

científica e filosófica, para refinar a linguagem

emocional e descritiva, para conservar a índole

da língua, sua identidade e, consequen-

130 temente, sua originalidade. Ao contrário do que

entendi de certas opiniões que li sobre o

assunto, a norma culta não tem nada de elitista,

é ou devia ser patrimônio e orgulho comuns a

todos. Elitismo é deixá-la ao alcance de

135 poucos, como tem sido nossa política.

RIBEIRO, João Ubaldo. In: O Globo, 1º. Caderno, Opinião, 29

maio 2011 – p. 7 (texto editado)

A opção em que todas as formas verbais NÃO apresentam desinência número-pessoal é:


A

rejeita – deixou – leem


B

abdicará – tornamos – reflete


C

seria – funcione – desagrada


D

produziu – fico – ouvem


E

humilha – entendi – enxerga