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No excerto “[...] os familiares começam a perguntar o...

Leia a crônica abaixo e responda da questão 1 à 5.


Dicionários ambulantes


Ana Elisa Ribeiro


Assim que a gente começa o curso de Letras, algo muda ao redor, mesmo que ainda não mude em nós. Por mais que essa graduação não seja lá das mais prestigiosas ou financeiramente promissoras e que haja muito preconceito e desinformação sobre ela (e tantas outras), logo detectamos os comportamentos diferentes no entorno, especialmente porque, ao que parece, muita gente acha que os conhecimentos no campo das Letras vêm numa caçamba e são prontamente despejados sobre nossos tampos de crânio abertos. Não é assim em nenhum curso, menos ainda no nosso, mas vá lá.

Alguns comportamentos que mudam têm relação com dicionários e gramáticas. Há uma visão comum – e errônea – de que: (a) pessoas de Letras se tornarão necessariamente professoras de português, talvez de inglês; (b) aprenderão gramática normativa e a aplicarão a torto e a direito; (c) saberão todas as palavras do dicionário de cor e salteado.

Há outras conclusões que tiram por aí, mas, quanto a essas três citadas, já é possível afirmar que não para todas ou, pelo menos, que nem sempre. Muitas pessoas cursam Letras por outras razões, e não para serem professoras; há cursos que são bacharelados, e não licenciaturas; nem o curso de Letras dá jeito em gramática normativa e dicionários ambulantes.

Não, não estou menosprezando os cursos de Letras; estou dizendo que o esforço para se tornar especialista em língua(s) e literatura(s) é maior do que apenas fazer a matrícula. Muitas vezes é inclusive maior do que sentar e ouvir aulas (a tal caçamba...). Uma pessoa vai se tornando boa no riscado à medida que entra nesse universo, lê, estuda, debate, assiste às aulas, conversa, frequenta outros cursos complementares, atua com gente mais experiente, aprende dentro e fora da universidade. E ela pode então se especializar em gramática normativa, geralmente com esforço adicional, porque normalmente nos formamos em linguística e literatura, que são ainda outras praias, sobre as quais, aliás, sabe-se pouco, fora dos muros das instituições de ensino superior.

Desculpas

Ocorre que, ali pelas primeiras semanas de aula, os familiares começam a perguntar o significado de palavras esdrúxulas, a vizinhança bate a campainha perguntando sobre regras gramaticais de rodapé, os amigos enviam e-mails que incluem “desculpe qualquer coisa”, esperando que façamos correções de redação nos textos do mundo inteiro, em qualquer circunstância. Certas pessoas até param de nos escrever, alegando medo ou vergonha: “Você vai reparar na minha escrita”. Outras pessoas, enquanto isso, aproveitam para, sem cerimônia, pedir a tal da “olhadinha”, que no mundo corporativo tem preço e prazo. O auge, talvez, seja a meia dúzia que deixa de escrever mensagens de zap e passa a mandar só áudio, algo pretensamente menos corrigível, mais fácil de escapar da fúria revisora dos/as estudantes de Letras.

Não é assim que funciona, na vida real. Há uma ambivalência interessante aí. Ao mesmo tempo que o curso e as profissões a ele ligadas são pouco conhecidos e sofrem toda sorte de preconceito, sendo negativamente avaliados em termos de futuro, tecnologia, finanças e profissionais bem-sucedidos (de terninho moderno e carro do ano), há um respeito profundo pelas – talvez mesmo um medo das – pessoas que, em tese, dominam a língua, isto é, a escrita e a leitura, nesta ordem. Mesmo profissionais de áreas que precisam fazer pouco esforço para parecerem atrativas costumam gostar de se mostrar cultos/as, exibindo suas estantes nas lives e seus exemplares de capa dura nas fotos. As estantes às vezes são fake; e não apenas porque são de livros falsos, mas porque não foram lidas. Mas que o objeto ali atrás tem valor, ah, isso tem.

Olhadinhas

A professora de português se lasca em todas as circunstâncias: revisa de graça todos os documentos da escola, incluindo às vezes provas de outras matérias. É chamada para resolver casos omissos de vírgula e de concordância. Perde tempo explicando os usos dos porquês a vida inteira; dorme e acorda sendo vista como uma possível carrasca das redações alheias. Atualmente, pode ser cobrada também adivinhar o tema de redação do Enem. Como assim “não sabe”?!

Não, não de um dia pro outro que se forma uma pessoa nas profissões que têm como objeto as línguas, literaturas e linguagens. Não é preciso ter medo, intimidar-se nas mensagens, envergonhar-se nas conversas. O sofrimento tem mão dupla, porque a pessoa de Letras é cobrada por escrever e falar com perfeição; nela, sim, pode ser que reparem o tempo todo, avaliando se parece ou não uma pessoa culta, letrada, que usa termos infrequentes e difíceis, se escreve as legendas dos filmes e das séries, mesmo sem ninguém pedir.

Nem lá, nem cá. O caminho é tortuoso. O esforço é grande. A paga é pouca para tanto trabalho. O preconceito se traveste de respeito, mas o que a gente precisa ter, mesmo, é coragem, dizia o seu João Rosa, em seu português de terceira margem.


Fonte: Ribeiro, Ana Elisa. Nossa língua e outras encrencas: crônicas. São Paulo: Parábola, 2023.

No excerto “[...] os familiares começam a perguntar o significado de palavras esdrúxulas [...]”, retirado do texto de Ana Elisa Ribeiro, podemos, sem prejudicar o sentido do texto, substituir a palavra em destaque pelo seguinte sinônimo:


A

simples;


B

habituais;


C

comuns;


D

exóticas;


E

usuais.