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No trecho “Onde guardar a dança da mão direita do...

Texto para as questões 05 e 06


No momento em que morreu, Joaquim escrevia um livro que nunca me mostrou. Meu pai, meu estranho. Ouvi falar da sua obra inacabada desde criança. Onde guardar a dança da mão direita do escritor, enquanto projetou o romance, toda a vida adulta, o pontilhado de gestos abortados, os rascunhos-fantasma, tentativas, planos, ou seriam sonhos, a energia despendida, o fogo de que irradiavam ideias que jamais viram a luz? O que restou foi o vazio. Mas talvez o vazio seja um lugar - uma cidade - repleto de avenidas. Algures, livro sobreviverá, aberto, como sobrevivem as nossas ideias, anseios, as nossas mistificações, literatura desconhecida, minha tradição. Ninguém leu o livro que dizia escrever. O escritor morreu, levou-o. Não é possível que a morte do meu Pai tenha matado o livro, que era a própria vida. O sonho dessa obra foi a herança que me deixou. Como parar de sonhá-lo, se jamais o li? Imagino a biblioteca dos livros por escrever.


Adaptado de Djaimilia Pereira de Almeida. O livro do meu pai. Todavia. 2025.

No trecho “Onde guardar a dança da mão direita do escritor...”, o seu efeito expressivo resulta de


A

antítese, pela articulação entre movimento espontâneo e paralisia.


B

metáfora, com a escrita associada a um gesto vivo e coreográfico.


C

prosopopeia, pela constituição da vida plena à mão do escritor.


D

metonímia, com a atribuição de racionalidade ao leitor como protagonista.


E

paradoxo, pelo tratamento contraditório ao invisível como concreto.