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Os 120 anos de 'Os Sertões', apontado como primeiro livro-reportagem brasileiro
1 "O sertanejo é, antes de tudo, um forte." Talvez esta seja a frase mais lembrada quando se trata do livro "Os
Sertões", obra-prima escrita por Euclides da Cunha e lançada há exatos 120 anos.
2 O livro, muitas vezes visto como uma epopeia da vida do sertanejo, numa luta diuturna contra as dificuldades
impostas pela natureza e enfrentando ainda incompreensão daqueles que formam a elite nacional, é
considerado o primeiro livro-reportagem brasileiro, posto que foi escrito como romance de não ficção.
3 Euclides da Cunha, um jornalista de formação militar, foi enviado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 1897
para cobrir a Guerra de Canudos, conflito armado ocorrido em 1896 e 1897 para encerrar a suposta
contestação popular ao regime republicano que surgiu no interior da Bahia.
4 O convite para ser o correspondente de guerra do matutino paulistano foi feito pelo jornalista Júlio de
Mesquita, proprietário do jornal. Antes, Euclides da Cunha havia publicado um artigo no periódico, chamado
"A Nossa Vendeia", no qual traçava um paralelo entre o movimento chefiado pelo líder messiânico Antônio
Vicente Mendes Maciel, mais conhecido como Antônio Conselheiro, no povoado de Belo Monte, terras onde
antes havia um arraial chamado Canudos, com o movimento monarquista francês que pretendia derrubar a
república, no fim do século 18.
5 Um texto redigido pela equipe do acervo do jornal O Estado de S. Paulo enfatiza o nascedouro da obra durante
os meses em que Cunha atuou na cobertura especial do conflito. "É em Canudos que começa a escrever as
primeiras notas de sua obra-prima 'Os Sertões', cujas primeiras amostras públicas aparecem no Estado, ainda
em 1898, sob o título 'Excerto de Um Livro Inédito'", afirma o texto publicado pelo acervo do jornal.
6 Segundo conta o biógrafo de Cunha, o diplomata, cientista político e historiador Luís Cláudio Villafañe Santos,
o jornalista "já saiu de São Paulo [rumo à Bahia] com a intenção de escrever um livro". "O jornal havia
prometido a ele que publicaria um livro, em forma de folhetim. Isso acabou não ocorrendo", comenta Santos,
que no ano passado publicou a obra "Euclides da Cunha - Uma Biografia".
7 "Os Sertões" seria escrito ao longo de cinco anos, de 1897 a 1902. "E, sim, se pode dizer que foi um pioneiro
livro-reportagem porque tem muito de um livro que procura ser mais do que literatura, procura ser um livro
de não ficção. Uma não ficção literária, um livro de jornalismo literário, para usar a expressão mais correta",
afirma Santos.
8 Nesse sentido, Cunha vestiu a carapuça do jornalista que era. "No livro, está a ideia de que ele estava
relatando fatos, ainda que o fizesse de forma literária", comenta o biógrafo.
9 Contudo, o interessante é notar que, ao longo do processo de depuração e escrita do livro, a própria visão de
Euclides da Cunha sobre a ocorrência histórica parece ter mudado substancialmente. Se durante o conflito,
quando ele reportava ao jornal O Estado de S. Paulo, sua visão era "oficialesca", na obra literária ele se põe
numa postura de denúncia da violência impetrada contra os sertanejos.
10 Para isso é preciso entender o contexto. Para atuar na cobertura, o jornalista resgatou sua patente militar —
era primeiro-tenente, mas havia deixado de exercer— e assim foi que ele atuou e teve os acessos necessários
ao trabalho. "O jornal o mandou como jornalista, mas ele também foi a Belo Monte como militar. Levou
uniforme, teve ajudante de ordens e uma inserção dentro do comando militar", aponta Santos.
11 "Depois, a narrativa do livro acabou sendo imensamente diferente da narrativa de suas reportagens
publicados ao longo da guerra", compara o biógrafo. "Antes, ele tinha uma visão pró-Exército, oficialista,
governista. E isso não se verifica quando ele escreveu o livro, cinco anos depois."
12 Para Santos, isso pode ter decorrido por causa da própria mudança de mentalidade da época. Àquela altura, já
eram conhecidas as "muitas denúncias de todos os absurdos" cometidos durante as batalhas em Belo Monte.
13 Estudioso da obra de Euclides da Cunha reconhecido internacionalmente, o professor Leopoldo Bernucci, da
Universidade da Califórnia em Davis, nos Estados Unidos, também concorda com a classificação pioneira de
"Os Sertões" como livro-reportagem. Segundo ele, a obra pode ser definida "como um livro que absorve, como
nenhum antes dele, um tipo de discurso que chamamos de reportagem". [...]
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/12/os-120-anos-de-os-sertoes-apontado-como-primeiro-livro-reportagem-brasileiro.shtml (adaptado)
Sobre Predicação Verbal, marque a opção em que a afirmação colocada entre parênteses está correta:
Canudos não se rendeu. (o verbo possui dois complementos: “se” e “não”.)
Antônio Conselheiro morreu em Canudos. (o verbo “morrer” é transitivo indireto, pois seu objeto indireto é preposicionado “em Canudos”.)
Muitos sertanejos se suicidaram quando Canudos foi dominado. (há uma ênclise em relação ao verbo e seu pronome.)
Os espelhos pasmavam diante do rosto cadavérico de Antônio Conselheiro. (o verbo “pasmar” neste contexto tem a semântica de atribuir uma característica humana a um ser inanimado.)
Os sertanejos viviam confinados em Canudos. (neste contexto o verbo “viver” é bitransitivo.)