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O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 21 a 30.
Letra e melodia
Cinco crianças se sentavam para assistir ao seriado favorito no tapete da sala, e eu era uma delas. Não lembro uma cena marcante sequer, mas a música de abertura está tatuada em minha mente. A letra dizia: "Ei, criança, não venda seus sonhos tão cedo. Pra onde você olhar haverá um coração, alguém para dar a mão". Só descobri seu sentido mais de uma década depois, quando aprendi um pouco de inglês.
Sempre me considerei do grupo que gosta da poesia dos versos, e me espanto ao perceber que já amava algumas músicas muito antes de saber sobre o que elas falavam. Minha mãe sempre foi fã dos hits dos anos 80 e 90, o tipo de música que todo mundo na minha família gosta. Ninguém precisa entender qualquer língua para sentir um arrepio com os acordes iniciais de Africa, do Toto.
Essa música, minha preferida, remete a tardes com minha mãe, quando eu não entendia nada do que dizia — e ainda assim já a amava. Crescer foi descobrir que essas canções tinham belas melodias e mensagens com as quais muitos podem se identificar.
Às vezes acontece o contrário: você descobre que a música que amava fala um bocado de abobrinhas. Outras, porém, revelam sentidos ainda melhores. Quem não achava a melodia de "Como nossos pais" bonita quando era pequeno? Mas talvez só alguém mais velho entenda a dor de Elis e Belchior no verso "eu sinto tudo na ferida viva do meu coração".
Talvez bom mesmo seja isso: amar algo mesmo sem compreendê-lo, permitir que desperte afeto, como uma criança que se apaixona pela melodia sem fazer ideia do que ela diz.
Texto Adaptado
PETROPOULEAS, Suzana Correa. Letra e melodia. In: Portal de Livros Abertos da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, [s.d.]. Disponível em:
https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/7 30/648/2404 . Acesso em: 16 nov. 2025.
No trecho "Essa música, minha preferida, remete a tardes com minha mãe, quando eu não entendia nada do que dizia — e ainda assim já a amava", são empregados recursos coesivos e enunciativos que contribuem para a progressão e para a coerência do texto, uma vez que:
o emprego do pronome demonstrativo "essa" estabelece coesão referencial anafórica, pois retoma uma música mencionada anteriormente no texto; já a locução "ainda assim" introduz uma justificativa causal, indicando a razão pela qual o enunciador nutria afeto pela canção.
o termo "essa", por sua natureza demonstrativa, estabelece coesão catafórica ao antecipar um referente que será explicitado posteriormente; por sua vez, "ainda assim" opera como conector condicional, introduzindo uma hipótese contraditória à expectativa estabelecida.
o uso do pronome "essa" contribui para a progressão temática por meio da coesão lexical reiterativa, enquanto a expressão "ainda assim" atua como marcador conclusivo, sintetizando o argumento anterior com finalidade explicativa.
a referência do pronome "essa" é de natureza anafórica, pois retoma um elemento anteriormente mencionado, reforçando a coesão textual; já a locução "ainda assim" possui valor concessivo, expressando a ideia de contraste entre o desconhecimento do conteúdo e o sentimento de afeto.