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O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 24 a 30.
11 de setembro
A rua estreita − da mesma largura desde o século XVIII − , as acanhadas casas de comércio e as residências com traços evidentes da arquitetura dos primeiros açorianos compõem a paisagem da pequena vila. Entre os poucos carros estacionados e circulando, não há nenhum com menos de cinco anos. O olhar atravessa a rua e vê o mar quase encostando na calçada; as pequenas embarcações de pesca flutuam embaladas por uma brisa velha conhecida dos moradores. Gaivotas tão íntimas das pessoas descansam boiando na água, sem se importar com o movimento de uns pescadores que recolhem tralhas no barco apelidado de Mariana.
Sebastião Batista, 72 anos, descalço e de casaco de lã, faz reparos no motor de sua baleeira. Em sua biografia há um episódio conhecido de todos: numa noite sem lua, ao ouvir o alarido de bruxas faceiras, escondeu-se sob a lona de uma canoa e viajou com elas, sem que soubessem, até a África, onde recolheram ervas para um feitiço. Na viagem, ouviu algumas canções e decorou três delas, que ainda hoje canta solitário em seus afazeres ou para quem desejar ouvi-las. Foram e voltaram na mesma noite e, a partir daquele episódio, Sebastião passou a ser muito respeitado. Nunca mais alguém o chamou de Tião.
Foi ele também o principal construtor da igreja, com uma torre lateral erguida sobre quatro pilares de canela, fazendo parecer que o sino flutua no centro da vila. A organização das novenas do Divino Espírito Santo é, igualmente, incumbência sua. Para tarefa tão importante, conta com o auxílio de sua mulher, dona Maria Celeste, companheira há cinquenta e três anos, benzedeira das mais renomadas. Com uma ladainha sussurrada e melódica, acompanhada pelo dedilhar suave e silencioso do rosário, curou muitos — alguns até desenganados por médicos de freguesias distantes.
Enquanto entornava uma lata de óleo no motor, Sebastião notou a aproximação de seu compadre José Vicente, o Zé da Alzira, que vinha com novidade para contar:
— Cumpade! Dois avião dirrubaro uns adifício no Estadosunido.
— Adonde?
— Estadosunido.
— Isso não é cum nóis, cumpade. Nóis lá avoemo?!
E continuou seu trabalho de reparar o motor, em meio às gaivotas e à maresia.
NEUERT, Werner. 11 de setembro. In: Fundação Indaialense de Cultura. 80 contos: volume 4. Indaial: FIC, 2021. Disponível em: https://www.ficindaial.com.br/fundacao/wp-content/uploads/2021/10/E-BOOK-80-CONTOS-4.pdf . Acesso em: 16 nov. 2025.
No excerto narrativo "11 de setembro", a construção coesiva contribui diretamente para a manutenção da unidade temática e para a progressão dos sentidos. Considerando os mecanismos linguísticos de coesão presentes no texto, assinale a alternativa que apresenta uma análise correta quanto aos elementos de coesão e seus efeitos na construção global do texto.
A sequência "Sebastião Batista, 72 anos, descalço e de casaco de lã, faz reparos..." retoma, por meio de anáfora direta, uma personagem introduzida apenas posteriormente, funcionando como antecipação de coesão que desorganiza a linearidade narrativa.
O uso de expressões como "nunca mais alguém o chamou de Tião" e "companheira há cinquenta e três anos" reforça a coesão por substituição e por tempo verbal, respectivamente, contribuindo para a construção de identidade do personagem ao longo do texto.
A construção "foi ele também o principal construtor da igreja" exemplifica elipse do sujeito, substituído por partícula expletiva, com o objetivo de atenuar a repetição de termos anteriores, ainda que isso comprometa a progressão lógica da narrativa.
A referência a "uns pescadores" e "seu compadre José Vicente" realiza uma coesão exofórica, visto que esses elementos são evocados com base em conhecimento extratextual do leitor, sem que haja qualquer introdução ou vínculo estabelecido no texto.