“Que o horror não se repita”, diz Antonieta Felmanas, sobrevivente do Holocausto
Por Amanda Péchy
- Cresci sem conhecer minha verdadeira origem. Nem meus pais eu sabia quem eram. Até
- os 18 anos, acreditava serem Clara e Naum, judeus que haviam fugido dos nazistas rumo ao
- Brasil durante a Segunda Guerra. Eu teria chegado aqui depois, aos 7 anos, pela dificuldade de
- deixarem a Europa com uma criança tão pequena.
- Estava já casada quando, por acaso, encontrei em uma velha caderneta uma anotação
- que muito me espantou: ali estava escrito que meus pais eram outros, os poloneses Hinde e
- Helschel Raichel. Foi um choque. Resolvi ir atrás dos fatos, em uma busca por mim mesma, que
- envolveu profunda emoção. A saga acabou virando o documentário Taibale: História de uma
- Criança Resgatada, premiado em festivais internacionais. Mais que narrar minha saga, ele serve
- como registro de um capítulo tenebroso que não pode, por nada, se apagar. Eu faço parte da
- última geração de sobreviventes do Holocausto e acredito que cutucar a ferida, deixando a
- memória viva, seja o caminho para evitar que aquele horror se repita.
- Fui aos poucos desenrolando o enredo. Nasci na Sibéria, para onde minha mãe, recém-
- casada e grávida, acabou deportada. Meu nome russo era Maia, mas em casa me chamavam de
- Taibale — pombinha, em ídiche. Com ajuda financeira de meu avô materno, conseguimos voltar
- para casa, em uma região que hoje pertence à Ucrânia. Descobri que meu pai havia sido
- executado dois anos antes. Acabei sendo encontrada por uma tia que tinha apenas 16 anos e,
- também, ficou órfã. Em 1946, com o fim da guerra, chegamos a um campo de refugiados em
- Milão, onde uma entidade judaica ajudava a rastrear casas para quem não tinha mais familiares
- vivos aos quais recorrer. Foi aí que acharam em São Paulo um casal de judeus que havia perdido
- um filho. Eu poderia preencher o vazio. E assim foi.
- Minha tia acabou em Israel, onde reconstruiu a vida. Nós nos reencontramos nos anos
- 1960, em Tel Aviv. Queria saber a verdade, mas ela hesitava em me contar. Tinha perdido
- recentemente meu marido e minha tia dizia: “Só vou falar quando você estiver feliz de novo”.
- Ao cumprir a promessa, revirando tantas lembranças dolorosas, desabamos. Mais tarde, em seu
- velório, conheci outros parentes vivendo em Israel que preencheram mais lacunas.
- Ver minha trajetória transformada em filme foi uma revelação. Na tela, percebi quantas
- tragédias vivi. Também entendi como resisti a tudo. O Holocausto poderia ter me endurecido,
- mas não aconteceu. Fui a primeira presidente da Unibes, uma instituição que acolhe pessoas
- vulneráveis, e, ao lado de meu terceiro marido, fundamos um instituto na Zona Sul paulistana,
- onde lutamos para que pessoas mais pobres tenham um lugar para viver.
(Disponível em: https://veja.abril.com.br/comportamento/que-o-horror-nao-se-repita-diz-sobrevivente-doholocausto/ – texto adaptado especialmente para esta prova).