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Leia o texto que se segue e responda às questões 1 a 10.
O desgastante trabalho humano por trás do ChatGPT: “Não é tão emocionante quando descobrimos o que envolve"
1 Se você já “conversou” com o ChatGPT ou outra ferramenta semelhante, pode ter achado, em um primeiro
2 momento, que se trata de uma tecnologia quase mágica. Como é possível que uma máquina entenda perguntas
3 feitas por humanos, interprete seu conteúdo e responda com informações estruturadas e em linguagem humana, em
4 questão de segundos, com evolução constante na qualidade das respostas?
5 Essa percepção de algo quase “sobrenatural” não é por acaso. Sam Altman, CEO da empresa responsável pela
6 tecnologia, a OpenAI, faz uso de termos como esse para descrever seus produtos. No ano passado, ao anunciar
7 novidades na plataforma X (ex-Twitter), ele escreveu que o que a empresa estaria prestes a apresentar “parecia
8 mágica”. Em um vídeo de apresentação da ferramenta de conversa por voz com o ChatGPT, uma porta-voz da
9 empresa afirmou: “isso parece tão mágico, é maravilhoso”. Mas o sucesso comercial da Open AI não vem do além.
10 Está ligado, em boa parte, com a exploração de pessoas e recursos naturais bastante reais, envolvendo cadeias
11 produtivas complexas e opacas, que terceirizam responsabilidades e exploram desigualdades estruturais.
12 Quem diz isso é Karen Hao, autora do livro Empire of AI (Império da IA, ainda sem edição no Brasil), lançado
13 em maio, em entrevista cedida à BBC News Brasil em sua sede, em Londres. A autora realizou cerca de 300
14 entrevistas, que ajudam a destrinchar o impacto global da empresa por trás do chatbot mais famoso do mundo.
15 [...]
16 Hao investigou a contratação indireta de milhares de trabalhadores precarizados, expostos ao pior tipo de
17 conteúdo da internet para treinar os filtros da ferramenta. Para isso, viajou do Quênia à Colômbia e entrevistou
18 pessoas que, em um cenário de crise econômica, aceitaram trabalhar nesse mercado de anotação de dados para a
19 indústria de IA. Foi também ao Chile, onde conheceu ativistas preocupados com o aumento de data centers e o
20 crescente consumo de recursos hídricos.
21 O “império” que dá título ao livro está ligado a essas relações de exploração econômica e à concentração
22 de poder. “Precisamos pensar nessas empresas como novas formas de império. Elas ganharam uma quantidade
23 extraordinária de poder político e econômico, a ponto de praticamente não existir mais nenhuma força superior no
24 mundo capaz de conter seu crescimento ou interesses próprios”, disse.
25 A moderação de conteúdo para IA generativa, como a do ChatGPT, não é exatamente a mesma que era feita
26 em conteúdo gerado por usuários em redes sociais, como do Facebook, segundo Hao. Isso porque trabalhadores
27 terceirizados filtram textos que nem sequer foram produzidos por uma pessoa real, mas sim gerados antecipadamente
28 por IA. “A OpenAl solicitou a seus próprios modelos que imaginassem alguns dos piores cenários de abuso de
29 texto, discurso de ódio de texto, assédio, texto racista, sexista, para dar aos trabalhadores, para que houvesse uma
30 distribuição mais ampla das piores coisas que eles pudessem então filtrar”, explica Hao.
31 A prática não é exclusiva de uma ou outra empresa. Um artigo publicado no ano passado por pesquisadores da
32 Microsoft (empresa que, vale lembrar, é uma das maiores parceiras da OpenAN), ao revisar a literatura recente sobre
33 o assunto, afirma que a tendência de ignorar a importância do trabalho humano em sistemas de IA é “comum”. E
34 que há um padrão no Vale do Silício de terceirizar esse tipo de atividade de filtrar conteúdo nocivo para fornecedores
35 terceirizados, “geralmente no exterior”. “Quando a mão de obra é transferida, especialmente de forma fragmentada,
36 para uma força de trabalho contingente distribuída globalmente, torna-se mais difícil rastreá-la e mais complicado
37 reivindicar proteções trabalhistas para ela”, diz o artigo.
38 Um dos trabalhadores retratados no livro é Mophat Okinyi, queniano contratado para atuar na moderação de
39 conteúdo que seria usado pela OpenAI. Ele integrava a equipe responsável por revisar material sexual. Sua função
40 era a de ler e classificar textos, distinguindo, por exemplo, entre erotismo consensual (considerado aceitável) e abuso
41 sexual, incluindo casos envolvendo crianças (inadmissível).
42 “Ele passou tanto tempo lendo sobre abuso sexual e pedofilia que isso mudou completamente sua personalidade”,
43 contou a autora. Okinyi desenvolveu sintomas de trauma psicológico, mas não sabia como explicar à esposa o que
44 estava acontecendo. “Como dizer que passo o dia inteiro lendo conteúdo sexual no trabalho? Isso nem soa como
45 um emprego de verdade”, relatou, conforme o livro. Na época, o ChatGPT ainda não havia sido lançado, e ele
46 decidiu guardar tudo para si.
47 Enquanto trabalhava no projeto, vivia com a esposa. Ás tarefas se tornaram cada vez mais pesadas: ocupavam
48 noites, fins de semana e envolviam conteúdos cada vez mais extremos, como violência sexual entre familiares e
49 zoofilia. Certo dia, voltando para casa, recebeu uma mensagem da esposa pedindo que passasse no mercado.
50 Quando chegou, ela não estava mais lá. Em seguida, recebeu uma mensagem: “Não reconheço mais o homem
51 em que você se tornou. Não vou voltar”. Quando o ChatGPT foi oficialmente lançado, em novembro de 2022,
52 Okinyi disse à Hao ter sentido orgulho de ter contribuído para tornar a ferramenta mais segura. Mas a pergunta
53 permaneceu: “O que recebi em troca valeu o que perdi?”.
54 Okinyi e outros trabalhadores como ele não prestavam serviço diretamente para a OpenAI, mas para empresas
55 terceirizadas que operam também para várias outras companhias. “Não é bom para a imagem das empresas que
56 os consumidores saibam que alguns dos produtos que estão comprando podem ter esse tipo de trabalho sujo sendo
57 feito nos bastidores”, avalia Hao.
58 [...]
59 Hao identifica três características em comum entre esses novos trabalhadores para o treinamento da IA: são
60 instruídos, têm ótima conectividade com a internet e baixa renda. “São as condições que as empresas de IA
61 descobriram que formam os melhores trabalhadores, porque eles executam bem as tarefas, são treinados muito
62 rapidamente e estão dispostos a fazer isso por muito, muito, muito pouco dinheiro”.
63 Um dos argumentos recorrentes dos que apoiam esse tipo de trabalho é que, sem eles, provavelmente estas
64 pessoas teriam de se sujeitar a condições ainda piores para se sustentar. Um empresário do setor é citado no livro
65 por uma frase do tipo. Ele disse que “se você pudesse estar puxando um riquixá (veículo de duas rodas puxado
66 por um humano) ou rotulando dados em um cibercafé com ar-condicionado, este último é um trabalho melhor”.
67 Para Hao, as empresas não podem usar isso como desculpa para desrespeitar direitos humanos. “Por que eles
68 não estão pagando aos trabalhadores um salário justo para realmente fazer um trabalho que é fundamental para
69 que eles consigam lucrar seus bilhões?”, questionou, lembrando que uma das premissas da OpenAlI é justamente
70 desenvolver uma tecnologia que possa ser usada pela humanidade para gerar mais riqueza. |...]
TOLEDO, Luiz Fernando; BELLO, Giovanni. O desgastante trabalho humano por trás do ChatGPT: 'Não é tão emocionante quando descobrimos o que envolve”. BBC News Brasil, São Paulo, 25 jun. 2025. Disponível em:
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A expressão “Este último” (Linha 66) retoma:
”os que apoiam esse tipo de trabalho” (Linha 63).
''condições ainda piores” (Linha 64).
''estar puxando um riquixá” (Linha 65).
''rotulando dados em um cibercafé com ar-condicionado” (Linha 66).
''um empresário do setor” (Linha 64).