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Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias...

TEXTO I


POR QUE O EMPREGADO AGORA É COLABORADOR?


A estreia da segunda temporada da magnífica série “Ruptura” nos dá a oportunidade de refletir sobre o

mais bem-sucedido eufemismo corporativo do nosso tempo: “colaborador”.

Na comédia distópica dirigida por Ben Stiller, a poderosa Lumon, empresa-polvo de estética fascista,

mantém um departamento em que empregados se submetem voluntariamente a um experimento radical

5 de alienação do trabalho. Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: fora

da empresa, nada sabem do que fazem lá dentro; quando estão dentro, ignoram a vida que levam fora.

São os colaboradores perfeitos.

No mundo em que o chip da Lumon ainda não existe (que se saiba), cabe à linguagem o mesmo

trabalho. Em sites uníssonos, a velha turma do setor de Recursos Humanos – também renomeado

10 para “gestão de pessoas” – explica que a palavra empregado tornou-se arcaica. Empresas modernas

contratam colaboradores.

Um parêntese: a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) continua a chamar de empregado quem, não

detendo meios de produção, trabalha em troca de salário. Claro que para os gurus do colaboracionismo,

interessados em sucatear a CLT, isso só atesta a beleza de sua “novilíngua”. Cito um desses manuais:

15 “Enquanto o empregado, em dias atuais, chega na empresa, faz o seu trabalho e vai embora, o colaborador

tem a consciência da sua importância na organização, possui uma visão sistêmica do seu setor ou da

empresa como um todo, incluindo suas metas e objetivos, e não mede esforços para ‘colaborar’ com isso”.

Ênfase em “não mede esforços”!

Não se chegou de um dia para o outro a esse nível de cinismo no mascaramento da natureza dos

20 contratos de trabalho firmados entre partes desiguais – patrões de um lado, empregados do outro. O

percurso linguístico rumo ao colaborador incluiu um estágio em que se favoreceu a palavra funcionário

(por tradição mais usada para o empregado do setor público) e até desvios burlescos como o de chamar

empregadas domésticas de secretárias.

Também é parte desse fenômeno a onda de eufemização que varreu o mundo de meio século para cá –

25 puxada, nesse caso, por setores progressistas da sociedade. Hoje em dia, a menos que você seja um ogro

de extrema direita, é bem difícil contestar a ideia de que acolchoar os atritos da realidade com palavras

bonitas – substituindo “mendigo” por “pessoa em situação de rua”, por exemplo – melhora a vida das

pessoas. Mesmo que elas continuem sem ter onde morar.

O eufemismo pode ser um aliado do processo civilizatório, como prova a sacada brilhante do primeiro

30 hominídeo que anunciou que iria “dar um pulo ali na moita”. Pode também ser – o que talvez seja mais

frequente – pura embromação. É preciso examinar caso a caso. O eufemismo da atual consagração de

colaborador como sinônimo preferível de empregado está claramente a serviço do desmonte de um

aparato histórico de proteção dos direitos dos trabalhadores.

Ainda melhor do que ser colaborador, claro, é dar dinheiro para um coach e virar “empreendedor

35 individual”. Mas esse chip os laboratórios da Lumon ainda estão aperfeiçoando. Deve ficar para a

terceira temporada.


SÉRGIO RODRIGUES

Adaptado de folha.uol.com.br, 15/01/2025.

Por meio do implante de um chip cerebral, têm suas memórias bifurcadas: (. 5)


O trecho exemplifica um caso de elipse.


A marca gramatical que permite a recuperação do termo em elipse, no trecho, é:


A

transitividade verbal


B

paralelismo sintático


C

concordância verbal


D

inversão sintática