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Leia o texto a seguir para responder às questões de 01 a 03.
Vida de cão
Há alguns anos eu estava num bar de praia, afastado da cidade, e fui buscar algo no carro, que se encontrava num estacionamento próximo a uma mata. Quando ainda abria a porta do carro, ouvi um ruído proveniente das folhagens e notei que era um cachorro caminhando entre os arbustos. Não dei muita atenção. Parecia um desses cachorros sem dono, abandonados e magros, que frequentam os arredores de bares na esperança de conseguir um resto de comida. O típico vira-lata.
O cão pareceu perceber a minha presença, mudou de direção e rumou ao meu encontro. Fiquei alerta. Ele veio andando lentamente e quando chegou cerca de dois metros parou. Levantou a cabeça e me olhou fixamente. Pude então notar que ele estava cravado de dezenas de espinhos no focinho e em torno dos olhos. Uma cena que eu nunca havia visto. Os espinhos me deram um frio na espinha, mas o que mais me impressionou foi o olhar do animal. Estava desnorteado e ao mesmo tempo padecia de dor e desespero. Passei de alerta a comovido.
Ficamos ali, um diante do outro, paralisados como num duelo, nos olhando fixamente. Um duelo não de morte, mas de salvação. Eu queria ajudar, aliviar o sofrimento dele, mas não sabia como agir. Ele queria ajuda, aliviar-se do sofrimento, mas também não sabia como agir. (...)
Mas não posso mentir para contar uma história com um final feliz. Nada disso ocorreu: o animal ferido reagiu ao meu primeiro passo com uma disparada mato adentro, em direção à sua provável morte. Fugiu do alívio e da salvação para ir ao encontro de mais dor, sofrimento e do fim de sua vida. (...)
Aquele cachorro não tinha capacidade de compreender o seu real problema e enfrentá-lo com coragem e determinação. Muitas vezes, nós também não. Como aquele vira-lata, acontece de fugirmos instintivamente para o nosso mato interior, e ali, a salvo das soluções, ficarmos eternamente destilando as amarguras. Vida de cão...
SARMENTO, Antonio Carlos. Vida de cão. Revista Crônicas e agudas. Disponível em <https://cronicaseagudas.com/2020/10/10/vida-de-cao/>.
Em relação ao narrador do texto “Vida de cão”, é correto afirmar que ele:
somente apresenta um fato, sem fazer nenhuma reflexão sobre ele.
apresenta um fato baseado na experiência de outra pessoa.
apresenta um fato baseado na sua própria vivência.
somente apresenta reflexões, sem tomar como base nenhum tipo de acontecimento.
é o próprio cão que fugiu para o mato e que conta toda a história.