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• Texto para as questões 60 e 61.
As concepções de linguagem e língua
A forma como o professor concebe a linguagem e a língua exerce influência decisiva sobre as práticas pedagógicas adotadas no ensino de Língua Portuguesa. Conforme argumenta Travaglia (2006), não se trata apenas de uma escolha teórica, mas de um posicionamento que afeta diretamente a organização do trabalho didático e a relação entre ensino, aprendizagem e uso da língua. Nesse sentido, a concepção de linguagem assumida pelo docente orienta tanto o lugar atribuído à gramática quanto os objetivos do ensino da língua materna.
No campo dos estudos linguísticos, destacam-se três concepções de linguagem recorrentemente discutidas. A primeira entende a linguagem como expressão do pensamento, subordinando a organização linguística à capacidade individual de estruturar logicamente ideias. Nessa perspectiva, dificuldades de expressão são interpretadas como falhas do pensamento, o que sustenta práticas de ensino fortemente normativas e prescritivas, centradas na correção gramatical e na valorização de um modelo considerado culto.
A segunda concepção compreende a linguagem como instrumento de comunicação, concebendo-a como um código compartilhado entre emissor e receptor. Embora essa visão reconheça a função comunicativa da língua, ela tende a tratá-la de forma abstrata e descontextualizada, privilegiando o funcionamento interno do sistema linguístico e reduzindo o papel do sujeito e das condições sociais de uso.
Já a terceira concepção entende a linguagem como forma ou processo de interação. Nessa perspectiva, a língua é vista como prática social situada, na qual os sujeitos constroem sentidos na interação, em contextos históricos e ideológicos específicos. Essa concepção fundamenta abordagens de ensino mais alinhadas às demandas contemporâneas, pois articula gramática, uso e sentido, reconhecendo a importância da norma-padrão sem dissociá-la das práticas efetivas de linguagem.
Assim, o debate não se coloca entre ensinar ou não ensinar gramática, mas em como ensiná-la. O ensino da gramática, quando orientado por uma concepção interacionista de linguagem, deixa de ser mera reprodução de metalinguagem e passa a constituir um instrumento para ampliar a competência comunicativa dos alunos, permitindo-lhes compreender e atuar de forma crítica nas diferentes situações de uso da língua.
Texto Adaptado de TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2006.
Com base no texto, assinale a alternativa que caracteriza corretamente a concepção de linguagem como expressão do pensamento e suas implicações para o ensino da língua materna.
Parte do pressuposto de que a organização linguística reflete diretamente a organização lógica do pensamento, o que tende a sustentar práticas de ensino normativas e prescritivas.
Considera a linguagem como um código neutro, priorizando a transmissão eficiente de mensagens entre emissor e receptor.
Entende a linguagem como prática social situada, enfatizando a construção de sentidos na interação entre sujeitos.
Valoriza a heterogeneidade linguística e os contextos sócio-históricos como elementos centrais do ensino.
Defende a superação do ensino gramatical em favor de práticas exclusivamente interpretativas.