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TEXTO PARA AS QUESTÕES 27 A 32
"O garrafeiro"
o garrafeiro era apenas um homem
que sobrava das ruas
também sujo de terra e esquecido
como as garrafas e cacos no quintal
suas mãos de cuidado
tangiam aranhas, lagartixas
e vez por outra
um escorpião afiado
depois arrumava as garrafas
lado a lado
âmbares, azuis, verdes, transparentes,
num arco-íris pobre
"essas são de vinho tinto"
dizia-me ele embriagado de vazios
e as de fundo côncavo serviam
para pescar piabas no Poti
o mundo é duro e frágil, eu aprendia
mas nele lições pequenas eternizam
piabas prateadas nas garrafas
como rútilos presos nos cristais
VILHENA, Graça. PEDRA DE CANTARIA. Teresina: Nova Aliança e Entretextos, 2013.
No poema "O garrafeiro", de Graça Vilhena, a construção da imagem do personagem central e sua relação com o mundo circundante pauta-se por uma série de informações implícitas que orientam a interpretação do leitor. Ao analisar os pressupostos e subentendidos que sustentam a tessitura poética, depreende-se que:
A expressão "embriagado de vazios" contém uma ironia implícita que sugere que o personagem, ao lidar com recipientes de bebidas alcoólicas, acabou desenvolvendo uma dependência química, o que explicaria seu estado de abandono social.
O processo de "pescar piabas" com garrafas de fundo côncavo revela, subjacente à simplicidade da ação, uma forma de resistência criativa (uma "poética do improviso") que permite ao sujeito marginalizado subverter a utilidade original dos objetos descartados.
A comparação final entre as piabas prateadas e os "rútilos presos nos cristais" pressupõe que o valor das coisas e dos seres é uma propriedade intrínseca da matéria, sendo independente do olhar ou da percepção de quem os observa.
A menção ao "arco-íris pobre" sugere implicitamente que a beleza é um privilégio das classes abastadas, e que a tentativa do garrafeiro de organizar as garrafas por cores é um esforço inútil e patético frente à sua miséria.
O fato de o garrafeiro ser "sobra das ruas" e estar "sujo de terra" implica, do ponto de vista do eu lírico, uma crítica à falta de políticas públicas de higiene urbana, tornando o poema um manifesto sanitarista.