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AÍ PELAS TRÊS DA TARDE
1 Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do
mundo, aplicando-se em ideias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que
afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de
repente sob os olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais
5 escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda pouco mais
tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não
sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa
expectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos
sapatos, tirando a roupa do corpo como se retirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe
10 até em pelo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória,
toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e
avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de
grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que
cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como
15 se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com
cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga
na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que
apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.
NASSAR, R. Menina a caminho. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.
A regra de uso de pronome identificada na sentença “[...] assim como quem se despede da vida[..]” é igualmente empregada em:
O escriturário me perguntou o que eu estava fazendo.
Todos se comoveram diante do discurso de despedida dele.
O bom senso do mundo, aplicando-se em ideias imaginárias.
Chamaram-no para ser sócio da empresa em que ele trabalhou.