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Sobre a intertextualidade e a intencionalidade discursiva...

Original até no plágio


Por Humberto Werneck


  1. Sabem os cronistas ___ que extremos pode levá-los a obrigação de encher um palmo de
  2. jornal ou revista e não ter assunto para rechear o espaço.
  3. Este é todo um longo e divertido capítulo do ofício. Divertido, é claro, apenas para o leitor,
  4. que nem sempre poderia imaginar o pesadelo que foi para Paulo Mendes Campos, por exemplo,
  5. alinhavar a deliciosa “Vaidades e uma explicação” ou, para Antônio Maria, pôr de pé sua
  6. impecável “Amanhecer no Margarida’s”.
  7. Fernando Sabino lembrou com muita graça o dia em que o colega Rubem Braga, ___
  8. míngua de assunto, lhe perguntou se tinha alguma crônica usada que pudesse lhe ceder.
  9. Organizadíssimo, o escritor mineiro baixou a seus arquivos e de lá trouxe a história de uma sopa
  10. servida a preço irrisório no Centro do Rio de Janeiro. O Velho Braga apanhou a crônica, deu um
  11. tapinha no texto e publicou.
  12. Tempos mais tarde, foi Sabino quem precisou de crônica de segunda mão, e fez ao amigo
  13. a mesma pergunta que ele lhe fizera. Braga mexeu e remexeu em seus papéis e o que exumou
  14. ali? Justamente ___ crônica da sopa dos pobres. Fernando ensaiou reclamação, mas, sem
  15. alternativa, engoliu a requentada sopa, com o trabalho adicional de trocar alguns ingredientes,
  16. de forma a disfarçar o sabor de coisa por demais manjada. Por via das dúvidas, para cortar
  17. qualquer possibilidade de mais idas e vindas, enfiou ali a informação de que o maldito caldo ia
  18. sumir do cardápio.
  19. O mesmo Braga tem duas outras histórias célebres de saídas brilhantes para o sufoco da
  20. falta de assunto. Numa das crises de inspiração zero, ainda no começo da carreira, ele encheu
  21. sua coluna, num jornal paulistano, de impropérios contra o leitor, sobre o qual despejou até
  22. mesmo pragas de forma tão graciosa, porém, que se tornou impossível abandonar a leitura,
  23. arrematada com um “Passe mal!”.
  24. Pela mesma época, Rubem Braga saiu-se ainda mais brilhantemente no dia em que, sem
  25. outro recurso, decidiu simplesmente publicar crônica alheia, de autoria de um amigo, ainda por
  26. cima, Carlos Drummond de Andrade, estampada fazia pouco num jornal de Belo Horizonte.
  27. Não, não se vai contar aqui a saborosa história – trate, sem mais tardança, de buscá-la
  28. por conta própria, e se regale com a criatividade de Rubem Braga, brilhante até mesmo quando
  29. recorre a texto que não seja seu.


(Disponível em: cronicabrasileira.org.br/res-do-chao/12332/original-ate-no-plagio – texto adaptado

especialmente para esta prova).

Sobre a intertextualidade e a intencionalidade discursiva presentes no texto, assinale a alternativa correta.


A

O texto vale-se da intertextualidade ao citar episódios da vida de autores renomados, servindo à intenção de desmistificar o “gênio” literário e expor a crônica como um ofício marcado por contingências práticas e crises de inspiração.


B

A intertextualidade no texto é construída de forma implícita e crítica, com a intenção de esclarecer a falta de originalidade de Rubem Braga ao se apropriar de textos de Carlos Drummond de Andrade.


C

A intenção discursiva do autor é estritamente pedagógica, visando mostrar ao leitor as técnicas para elaborar uma crônica por meio da paráfrase.


D

O autor emprega a intertextualidade para estabelecer um confronto estético entre a literatura “deliciosa” do passado e a imprensa contemporânea, tendo como intenção lamentar o fim das “saídas brilhantes” no jornalismo atual.