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Considerando os trechos a seguir, retirados do texto...

O alívio de não ser tão importante


Por Pedro Guerra Kuman



01 No início dos anos 2000, um estudante entrou numa sala cheia usando uma camiseta

02 considerada constrangedora. Não era provocação nem descuido: era parte de um experimento

03 de psicologia social. Depois de alguns minutos entre olhares dispersos e conversas paralelas,

04 perguntaram a ele quantas pessoas haviam reparado na vestimenta. “Metade da sala”,

05 respondeu confiante. Todavia, na prática, pouco mais de um quinto percebeu.

06 Lembrei-me dessa história dias atrás, quando um amigo me disse: nós não somos tão

07 importantes assim.

08 Nós, pessoas de pensamento acelerado, tendemos a acreditar que a catástrofe é uma

09 certeza que eventualmente vai nos encontrar. Antecipamos cenários inexistentes, ensaiamos

10 diálogos que nunca existirão, prevemos um enredo que, de tanto ninguém querer ver, ele nem

11 mesmo acontece. Gostamos de acreditar que somos protagonistas da nossa própria história —

12 e, em alguma medida, somos mesmo. A questão é que, na vida dos outros, na maioria das

13 vezes, a gente é só figurante.

14 A Psicologia chama isso de “efeito holofote”: a tendência de acreditar que há sempre um

15 foco apontado para nós, por isso superestimamos o quanto os outros estão nos julgando e nos

16 assistindo. E de fato: a vida é uma eterna performance. Porém, muitas vezes esquecemos que

17 nem sempre seremos o centro da plateia alheia. Não porque sejamos irrelevantes ou porque

18 ninguém se importe em absoluto, mas porque cada um está ocupado demais tentando

19 administrar as próprias dores.

20 Na sociedade da vitrine, nos acostumamos a sermos observados o tempo inteiro. Há

21 reação, há métrica — há sempre algum número medindo nossa existência. As redes sociais

22 reforçaram essa sensação de palco permanente. Sem perceber, passamos a buscar confirmação:

23 eu quero ser aceito para não correr o risco de ficar de fora. Curioso como, em pleno século 21,

24 ainda reagimos como se estivéssemos tentando garantir um lugar na fogueira da caverna.

25 Para mim, a frase do meu amigo foi como um lembrete: nem todo mundo está interessado

26 no que a gente veste, escolhe fazer, diz ou em como nos desempenhamos. É quase mágico esse

27 momento em que percebemos o alívio de não ser tão importante. Funciona quase como uma

28 redenção, um desprender-se. É o local onde se pode errar em paz. Afinal, se o mundo não para

29 por causa dos nossos constrangimentos, ele certamente também não irá parar por conta dos

30 nossos fracassos. E, se repararmos bem, veremos que há uma espécie de humildade nisso. É a

31 constatação de que o mundo é grande demais para girar em torno dos nossos tropeços. E que,

32 ainda assim, seguimos pertencendo a ele.

33 Talvez o erro seja acreditar que precisamos ser protagonistas o tempo todo. Há uma

34 liberdade silenciosa e extraordinária em simplesmente aceitar o papel de coadjuvante vez que

35 outra. Para todos os efeitos, basta estar. Basta aprender a ser espectador. No fim, quem sabe a

36 vida não esteja nem aí para cada malabarismo das nossas performances. Ela só quer que a gente

37 esteja presente e que saibamos existir sem tanto esforço.


(Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/pedro-guerra/noticia/2026/03/o-alivio-de-nao-ser-tao-importante-cmmdhxr1b01bg016a3bk8hyoi.html – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando os trechos a seguir, retirados do texto, assinale a alternativa na qual a palavra “se” tenha sido empregada como índice de indeterminação do sujeito.


A

“Não porque sejamos irrelevantes ou porque ninguém se importe em absoluto”.


B

“ainda reagimos como se estivéssemos tentando garantir um lugar na fogueira da caverna”.


C

“É o local onde se pode errar em paz”.


D

“Afinal, se o mundo não para por causa dos nossos constrangimentos, ele certamente também não irá parar por conta dos nossos fracassos”.


E

“E, se repararmos bem, veremos que há uma espécie de humildade nisso”.