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O texto seguinte servirá de base para responder às questões de 21 a 30.
Maior Sorte
O médico me olhou achando graça.
"Parece até que você está indo ao cinema" comentou sobre meu relaxamento.
Tentei falar que talvez tivesse algo a ver com a epidural, mas as palavras não saíram, e só consegui esboçar um sorriso indeciso. As paredes brancas eram tão claras que me cegavam como se fosse um quarto escuro feito breu, e logo caí num sono profundo. A próxima coisa que me lembro foram os gritos.
Eu os ouvia através de um véu, que tornava o som oco e distante, ainda que me perfurassem. Sua dor, eu acredito, doía mais em mim do que em você. De repente, como que por mágica, o silêncio reinou.
Olho para baixo e lá está você, com a cabecinha mole que tanto me aterrorizou nos meses seguintes, encostada no meu peito. Você era uma paz que eu nunca soube ter. Apesar do parto tranquilo, você estava virada. O médico não te retirou, como é de praxe, pela cabeça, mas pela sua bundinha de neném. Ele brincou que você nasceu com o bumbum virado pra lua, mas eu sabia que isso não era brincadeira nenhuma. A sua primeira sorte foi ter vindo de mim. O que são casualidades e probabilidades se não esse conceito místico e até vulgar que chamamos de boa ou má sorte? Eu gostaria de entender, mas vou deixar essa para os filósofos. Só sei que a calmaria do seu nascimento foi um presságio de todos os trevos de quatro folhas que você encontraria ao longo da vida. A sua segunda sorte deve ter sido como nunca te deixei cair de maneira fatal, como você sempre atravessou a rua de forma segura, mesmo que soltasse as minhas mãos, que nunca deixaram de buscar as suas, e que por sua vez só buscavam independência. Para ficar vivo, necessita-se de uma baita sorte. E, por te ter comigo, ganhei na loteria.
MAGALHÃES, Lívia Batista. Maior sorte. In: MALULY, Luciano Victor Barros; MUÑOZ, Daniel Azevedo; TÔZO, Carla de Oliveira (org.). Crônicas para ler e ouvir: número 2. São Paulo: ECA-USP, 2023. Disponível em: https://www.livrosabertos.abcd.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/1095/1000/3699 . Acesso em: 14 abr. 2026.
Considere o seguinte trecho:
"mesmo que soltasse as minhas mãos, que nunca deixaram de buscar as suas, e que por sua vez só buscavam independência."
O conectivo "mesmo que" introduz uma concessão — isto é, admite um fato que poderia contradizer o que vem antes, mas não contradiz. Sobre o papel desse recurso na coesão e na coerência do trecho, assinale a alternativa CORRETA.
O uso de "mesmo que" rompe a coerência local do trecho porque a concessão admite um fato — a filha soltava as mãos — que contradiz a ideia de proteção defendida pela narradora ao longo do parágrafo, criando uma tensão semântica sem resolução.
O "mesmo que" estabelece coesão referencial ao retomar "mãos" como elo entre as duas orações, mas enfraquece a coerência ao sugerir que a busca da mãe e a busca da filha têm o mesmo objeto, gerando uma sobreposição de intenções que o texto não resolve.
A concessão introduzida por "mesmo que" é coerente com o texto porque admite que a filha buscava afastamento, sem que isso negue o vínculo — o que garante a unidade de sentido entre a proteção da mãe e a autonomia crescente da filha.
A concessão funciona como recurso de coesão sequencial, organizando as ações em ordem cronológica — primeiro a filha solta a mão, depois a mãe busca, depois a filha busca independência —, o que confere ao trecho uma progressão temporal coerente com a narrativa.