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Em que opção a análise do termo destacado está correta?

Leia o texto e responda às questões de 01 a 12.


Texto I


'Quer adressar?', me perguntou a moça

Dicas para acessar o português moderno e não dar a resposta errada a uma boa proposta

De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o envelhecer a meu favor, fingindo perda de audição pela idade avançada, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

O cenário era a loja chique de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui - a ficha caiu:

"Eu posso adressar o produto amanhã cedo para a sua casa?", era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender.

Os neologismos participam da língua, inputam em alguns casos a solução onde antes havia um gap de comunicação. "Adressar", metabolizado do inglês to address, era endereçar a paciência para um lugar muito distante de qualquer necessidade, mas entendi o approach. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping. Bastava me remeter (se quisesse falar um português bonito), me despachar (se gostasse de mostrar a chiadeira do sotaque carioca) ou simplesmente me entregar a compra - verbos que seriam imediatamente compreensíveis por qualquer idoso amanhã cedo. Ri por dentro.

A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões, na de Ana Martins Marques, e - como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação - exibindo às vezes uma mesóclise de polainas - e já no parágrafo seguinte caio de boca - com o piercing no lábio inferiorno saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

Ela adora uma novidade, mas não é boba. Já enfrentou o gerundismo, o "a nivel de", o prefeito que proibiu usar "sale" nas vitrines, o "atravessamento", о ministro que traduzia para o tupi-guarani as expressões que chegavam ao gabinete em inglês. Na onda do mundo digital é natural reciclar palavras que acessem, que resetem, que escaneiem ou zapeiem o novo cotidiano agora online. Algumas logo desaparecem debaixo da risada geral (estartar, por exemplo), outras seguirão, numa nice, para os jobs do dia a dia.

Eu printo, tu printas, quem nunca? Na semana passada, uma amiga me telefonou para contar a última do vocabulário em seu escritório. Na reunião da manha, o diretor executivo exultava de felicidade, e fez um speech dizendo que "o resultado do benchmark draivou a melhoria do processo" - isso mesmo, no sentido de "to drive" do inglês, o benchmark guiou, dirigiu com sucesso os negócios do escritório. O resto foi o de sempre, e tome deadline, upscaling, asap, trade marketing e foco no cliente.

A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de "adressar" a compra, eu aquiesci jovial - e me fiz up to date: "Sim, por favor, adressa, sim".


(SANTOS, Joaquim Ferreira dos. Disponível em: <<https://oglobo.globo.com/cultura/joaquim-ferreira-dos-santos/coluna/2025/10/quer-adressar-me-perguntou-a-moca.ghtml>>)

Em que opção a análise do termo destacado está correta?


A

"De início não entendi o verbo [...]." (§1°) - A locução adverbial foi empregada em referência a toda a declaração, exprimindo um juízo pessoal do cronista.


B

À luz de Cunha e Cintra, as formas verbais destacadas em "[...] eu aquiesci jovial - e me fiz up to date: [...]." (§8°) apresentam aspecto incoativo.


C

"[...] eu negociava com ela, vendedora educadíssima. [...]." (§2°) - O adjetivo, em grau superlativo sintético, ressalta o elevado grau de educação da vendedora.


D

"[...] roçar na de Luís de Camões, na de Ana Martins Marques, e [...] tirar prazer disso." (§5°) - O pronome tem função dêitica, uma vez que faz referência a termo já mencionado.


E

"[...] a proposta de 'adressar' a compra, eu aquiesci jovial [...]." (§8°) - No contexto, o termo funciona como um complemento verbal que evidencia o modo de agir do enunciador.