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Texto 1
Soneto da hora final
Será assim, amiga: um certo dia,
Estando nós a contemplar o poente,
Sentiremos no rosto, de repente,
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente,
E eu te olharei também, com nostalgia,
E partiremos, tontos de poesia,
Para a porta de treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo,
Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo.
E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.
E como dois antigos namorados,
Noturnamente tristes e enlaçados,
Nós entraremos nos jardins da morte.
MORAES, Vinicius de. Soneto da hora final. In: MORAES, Vinicius de. Livro de sonetos: 1957/1967. Organização de Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 30.
No segundo terceto, a construção “Eu, calmo, te direi” é retomada paralelamente em “E tu, tranquila, me dirás”. Essa organização sintática contribui para o sentido do poema ao
contrastar a reação emocional de cada personagem diante da morte.
distribuir ações sucessivas entre os amantes durante a despedida.
construir uma reciprocidade afetiva diante da travessia da morte.
subordinar a fala da mulher à atitude assumida pelo homem.