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Considerando a progressão argumentativa do texto e as...

O texto a seguir refere-se às questões 1 e 2.

Costuma-se atribuir à clareza de um texto uma espécie de transparência: quanto mais claro ele parece, menor teria sido o esforço necessário para produzi-lo. A impressão é enganosa. Em muitos casos, a simplicidade percebida pelo leitor resulta justamente de um trabalho complexo de seleção, organização e reescrita. Quem escreve precisa decidir não apenas o que dizer, mas também o que excluir, em que ordem apresentar as informações e quais relações deixar explícitas para que o leitor possa reconstruir o percurso proposto.

Isso não significa que todo texto deva antecipar cada dúvida possível. Se assim fosse, a tentativa de eliminar qualquer margem de interpretação produziria textos intermináveis e, paradoxalmente, menos eficientes. Há informações que podem permanecer implícitas porque o contexto permite recuperá-las; outras, porém, precisam ser formuladas de modo mais explícito, sobretudo quando sua omissão compromete a continuidade do sentido. Escrever com clareza, portanto, não consiste em dizer tudo, mas em avaliar o que o leitor necessita para estabelecer relações entre as partes do texto.

Essa avaliação revela uma característica frequentemente esquecida da escrita: embora o autor produza o texto em determinado momento, ele precisa imaginar um interlocutor que ainda não está diante dele para pedir esclarecimentos. Na conversa cotidiana, uma expressão ambígua pode ser reformulada imediatamente, um gesto pode complementar uma frase e uma pergunta pode revelar que determinada informação não foi compreendida. Na escrita, parte desses recursos desaparece ou se transforma. Por isso, cabe ao autor construir linguisticamente algumas das condições que, na interação face a face, poderiam ser negociadas durante o próprio diálogo.

Revisar um texto, nessa perspectiva, é mais do que corrigir desvios gramaticais. É retornar ao que foi escrito procurando lê-lo também a partir de uma posição diferente daquela de quem o produziu. Nem sempre se consegue fazê-lo plenamente, pois o autor conhece relações que talvez não tenham sido suficientemente marcadas no texto. Ainda assim, é esse deslocamento que permite perceber lacunas, ambiguidades e conexões que pareciam evidentes durante a escrita, mas que podem não sê-lo para quem lê.

Considerando a progressão argumentativa do texto e as relações estabelecidas entre suas partes, assinale a alternativa que apresenta uma interpretação adequada da tese desenvolvida pelo autor.


A

A clareza textual depende fundamentalmente da explicitação de todas as informações necessárias à interpretação, pois conteúdos implícitos tendem a comprometer a compreensão quando autor e leitor não compartilham a mesma situação comunicativa.


B

A impossibilidade de interação imediata entre autor e leitor faz da escrita uma modalidade menos eficiente que a conversação, uma vez que recursos disponíveis na comunicação oral não podem ser reproduzidos no texto escrito.


C

A produção de um texto claro envolve decisões sobre seleção, organização e explicitação das informações, considerando as condições de compreensão do leitor sem pressupor que clareza corresponda à explicitação exaustiva de todas as informações ou à eliminação de toda margem de interpretação.


D

A revisão textual deve concentrar-se prioritariamente na reconstrução da perspectiva do leitor, já que aspectos gramaticais exercem função secundária na produção da clareza e podem ser corrigidos independentemente da construção global do sentido.