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A correlação entre os tempos das formas verbais está...

01 A ideia de que uma nova tecnologia está estragando a língua reaparece sempre que nossos

02 hábitos de comunicação se transformam. Uma mensagem como “kd vc?” pode levar alguém a

03 imaginar que seu autor desaprendeu a escrever. Entretanto, a mesma pessoa que emprega essa

04 abreviação em uma conversa informal pode escrever de outra forma em um currículo, em um

05 trabalho acadêmico ou em uma solicitação profissional. Isso revela uma capacidade importante de

06 ajustar a linguagem às diferentes situações da vida.

07 A Linguística Aplicada procura compreender essas práticas antes de julgá-las. Nas redes

08 sociais e nos aplicativos, combinamos palavras, áudios, imagens, vídeos, emojis, GIFs e links.

09 Também aprendemos a interpretar sinais muito sutis. Um ponto final pode ser apenas um sinal de

10 pontuação em determinado texto e parecer frio, ríspido ou irritado em uma conversa pelo

11 WhatsApp. Um emoji pode suavizar uma frase, sugerir ironia ou alterar completamente o seu

12 sentido. Tudo isso exige competências comunicativas complexas.

13 O linguista Alastair Pennycook nos ajuda a perceber outra dimensão dessa discussão. Para ele,

14 as ideias que temos sobre a linguagem foram profundamente marcadas por uma tradição europeia

15 e colonial que transformou determinadas formas de falar e escrever em padrões supostamente

16 universais. Por isso, classificar uma prática linguística como pobre, errada ou inferior nunca é um

17 gesto completamente inocente. Precisamos perguntar quem estabeleceu o padrão, quais grupos

18 sociais são reconhecidos por ele e quais vozes acabam tratadas como menos legítimas.

19 A escrita digital torna essa disputa muito visível. Muitas práticas condenadas como sinais de

20 empobrecimento são, na verdade, demonstrações de criatividade, adaptação e pertencimento.

21 Memes, abreviações, variações ortográficas e combinações entre texto e imagem podem expressar

22 humor, identidade, intimidade e crítica social. Isso não significa que todas as formas de escrita

23 sirvam igualmente para qualquer situação. Significa reconhecer que saber uma língua envolve

24 circular entre diferentes registros e compreender os efeitos das escolhas realizadas.

25 Também precisamos considerar que as plataformas interferem nessas práticas. Elas promovem

26 algumas formas de expressão, reduzem a visibilidade de outras e estabelecem limites para aquilo

27 que pode circular. A linguagem digital, portanto, não se desenvolve em um espaço neutro. Ela está

28 atravessada por relações comerciais, raciais, culturais e políticas.

29 É importante salientar que não estamos assistindo ao empobrecimento da língua. Estamos

30 diante da ampliação e da diversificação de nossos recursos comunicativos. O desafio consiste em

31 garantir que essa ampliação venha acompanhada de formação crítica, para que as pessoas saibam

32 produzir sentidos, reconhecer desigualdades e compreender por que algumas formas de falar e

33 escrever recebem mais prestígio do que outras.


ARAÚJO, Júlio. “O feed é uma seleção orientada por interesses políticos, econômicos e ideológicos”. Entrevista. Entre, UFC, v.3, n.1, 2026. Disponível em: https://aentre.com.br/entrevistas/o-feed-e-uma-selecao-orientada-por-interesses-politicos-economicos-e-ideologicos/. Acesso em: 13 set. 2026.

A correlação entre os tempos das formas verbais está correta somente no item:


A

Duas pessoas podem abrir a mesma rede social no mesmo instante e encontrassem mundos completamente diferentes.


B

As plataformas deixarão de funcionar como simples lugares nos quais publicávamos textos e começaram a selecionar o que vimos.


C

A resposta de uma inteligência artificial parece surgir naquele instante, mas carrega vestígios de inúmeras vozes, textos, decisões técnicas e interesses comerciais.


D

Por isso, já não bastando perguntar o que uma mensagem significa ou quem a escrevesse. Precisemos investigar que dados tornaram aquela resposta possível.