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Texto para os itens de 96 a 116
Sobre gramáticos e revisores
1 Os gramáticos são entidades dotadas de um grande
poder.
Eles têm o poder para baixar leis sobre como as
4 palavras devem ser escritas e sobre como elas devem ser
ajuntadas. Seu poder vai ao ponto de poderem estabelecer
que uma certa palavra existe ou que tal palavra não existe.
7 Quando a dita palavra aparece em um texto, eles a
desrealizam por meio de uma palavra latina, deleatur,
afirmando que se trata de um simples fantasma.
10 Foi o que aconteceu com a palavra “estória”.
Atreva-se a escrevê-la! Os “revisores”, policiais da língua
que cumprem as ordens dos gramáticos, logo a transformam
13 em “história”, assumindo que o escritor a escreveu por
ignorar que ela foi a óbito.
Os revisores são seres obedientes: cumprem e fazem
16 cumprir as leis ditadas pelos gramáticos. Saramago descreve
a sua condição como seres “atados de pés e mãos por um
conjunto de proibições mais severas que um código penal”.
19 Olhos de falcão, têm de estar atentos aos mínimos detalhes.
Sua concentração nos detalhes é de tal ordem que, por vezes,
o sentido do texto, aquilo que o escritor está dizendo, lhes
22 escapa.
Aconteceu comigo. Escrevi um livro — O Poeta,
o Guerreiro, o Profeta. O argumento se construía
25 precisamente sobre a diferença entre “estória” e “história”.
Em um capítulo era “estória”. No outro, era “história”. Se
ele, o revisor, tivesse prestado atenção naquilo que eu estava
28 dizendo, ele teria notado que o aparecimento alternativo de
“estória” e “história” não podia ser acidental. Mas ele,
obediente às leis dos gramáticos, transformou todos os
31 "estórias” em “história”, tornando o meu livro
gramaticalmente correto e literariamente nonsense. Noutra
ocasião, o revisor enquadrou na reforma ortográfica uma fala
34 do Riobaldo, que eu citava. Ficou divertido ler Riobaldo,
jagunço de muitas mortes, contando seus casos com fala de
professora primária.
37 Saramago tem medo dos revisores. Não permite que
eles metam o bedelho nos seus livros para enquadrá-los às
regras da gramática. Desprezando vírgulas e pontos, ele
40 vai em frente, consciente de que seus leitores são
suficientemente inteligentes para colocar as vírgulas e os
pontos nos lugares que sua respiração e o sentido
43 determinarem.
Mas o escritor português sabe que os revisores são
pessoas que sofrem. Deve ser terrível viver o tempo todo sob
46 a tirania das leis dos gramáticos e sob a tirania do texto do
autor a que eles têm de se submeter, sem dar sua
contribuição pessoal. Afinal de contas o revisor não gosta de
49 ser revisor. Ele queria mesmo era ser escritor.
Assim, contrariamente ao que já disse, fico a pensar
que talvez o poder dos revisores seja maior que o poder dos
52 gramáticos: com uma única palavra, eles podem mudar o
mundo ou arruinar um livro.
Rubem Alves. Folha de S. Paulo, 20/1/2009. Internet: <www1.folha.uol.com.br> (com adaptações).
Julgue os itens de 109 a 116 à luz da retórica e da teoria da argumentação.
O período a seguir, reproduzido da Internet (www.scb.org.br), foi construído com base no raciocínio categórico-dedutivo: Argumentava-se inicialmente que foi o aumento do tamanho do cérebro que ocasionou o surgimento do Homo sapiens, o grande utilizador de artefatos. As criaturas com cérebro menor eram consideradas inferiores na cadeia evolutiva. Posteriormente, ao se promoverem as criaturas com cérebro menor a utilizadoras de artefatos, passou-se a argumentar que foi o uso dos artefatos que ocasionou o aumento do cérebro.
Certo
Errado