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Assinale a opção em que o valor semântico das conjunções...

Texto – Talvez o último desejo


Rachel de Queiroz


  1. _____ Pergunta-me com muita seriedade uma
  2. moça jornalista qual é o meu maior desejo
  3. para o ano de 1950. E a resposta natural é
  4. dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade
  5. pública e particular para todos, saúde e
  6. dinheiro aqui em casa. Que mais há para
  7. dizer?
  8. _____ Mas a verdade, a verdade verdadeira
  9. que eu falar não posso, aquilo que representa
  10. o real desejo do meu coração, seria abrir os
  11. braços para o mundo, olhar para ele bem de
  12. frente e lhe dizer na cara: Te dana!
  13. _____ Sim, te dana, mundo velho. Ao planeta
  14. com todos os seus homens e bichos, ao
  15. continente, ao país, ao Estado, à cidade, à
  16. população, aos parentes, amigos e
  17. conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não
  18. ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou
  19. a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, voume
  20. embora, mudo de nome e paradeiro, quero
  21. ver quem é que me acha.
  22. _____ Isso que eu queria. Chegar junto do
  23. homem que eu amo e dizer para ele: Te dana,
  24. meu bem! Doravante pode fazer o que
  25. entender, pode ir, pode voltar, pode pagar
  26. dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de
  27. borco pelas calçadas, pode jogar futebol,
  28. entrar na linha de Quimbanda, pode amar e
  29. desamar, pode tudo, que eu não ligo!
  30. _____ Chegar junto ao respeitável público e
  31. comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público.
  32. Acabou-se a adulação, não me importo mais
  33. com as vossas reações, do que gostais e do
  34. que não gostais; nutro a maior indiferença
  35. pelos vossos apupos e os vossos aplausos e
  36. sou incapaz de estirar um dedo para acariciar
  37. os vossos sentimentos. Ide baixar noutro
  38. centro, respeitável público, e não amoleis o
  39. escriba que de vós se libertou!
  40. _____ [...]
  41. _____ Mas não faço. Queria tanto, mas não
  42. faço. O inquieto coração que ama e se assusta
  43. e se acha responsável pelo céu e pela terra, o
  44. insolente coração não deixa. De que serve,
  45. pois, aspirar à liberdade? O miserável coração
  46. nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O
  47. que ele deseja é mesmo servidão e
  48. intranquilidade: quer reverenciar, quer ajudar,
  49. quer vigiar, quer se romper todo. Tem que
  50. espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as
  51. quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados
  52. e bendizer os seus caprichos; e dessa
  53. submissão e cegueira tira a sua única
  54. felicidade.
  55. _____ Tem que cuidar do mundo e vigiar o
  56. mundo, e gritar os seus brados de alarme que
  57. ninguém escuta e chorar com antecedência as
  58. desgraças previsíveis e carpir junto com os
  59. demais as desgraças acontecidas; não que o
  60. mundo lhe agradeça nem saiba sequer que
  61. esse estúpido coração existe. Mas essa é a
  62. outra servidão do amor em que ele se
  63. compraz - o misterioso sentimento de
  64. fraternidade que não acha nenhuma China
  65. demasiado longe, nenhum negro demasiado
  66. negro, nenhum ente demasiado estranho para
  67. o seu lado sentir e gemer e se saber seu
  68. irmão.
  69. _____ [...]
  70. _____ E assim, em vez da bela liberdade, da
  71. solidão e da música, a triste alma tem mesmo
  72. é que se debater nos cuidados, vigiar e amar,
  73. e acompanhar medrosa e impotente a loucura
  74. geral, o suicídio geral. E adular o público e os
  75. amigos e mentir sempre que for preciso e
  76. jamais se dedicar a si própria e aos seus
  77. desejos secretos.
  78. _____ Prisão de sete portas, cada uma com
  79. sete fechaduras, trancadas com sete chaves,
  80. por que lutar contra as tuas grades?
  81. O único desabafo é descobrir o mísero
  82. coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e
  83. botar na boca toda a amargura do cativeiro
  84. sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana,
  85. coração, te dana!

Fonte: http:// cmais.com.br/aloescola/literatura/

cronicas/racheldequeiroz.htm. Acesso em

11/11/2016)

Assinale a opção em que o valor semântico das conjunções destacadas está corretamente identificado.


A

“...olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara...” (linhas 11-12) — Oposição.


B

“Danem-se que eu não ligo...” (linhas 17-18) — Explicação.


C

“...pode tudo, que eu não ligo!” (linha 29) — Consequência.


D

“De que serve, pois, aspirar à liberdade?” (linhas 43-44) — Causa.