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CapítulodoGênesis
1.E o Senhor, vendo que os homens não melhoravam,
antes se tornavam piores, decidiu mandar-lhes uma
chuva de advertência; e com isto lhes manifestava seu
enfado, e que outro dilúvio não estaria fora de
cogitações.
2.E a chuva começou a cair, a princípio alegre com
seu destino de chuva; insistente, depois, e zangada,
fazendo a luiramorada dos homens.
3.Eoscaminhosseencheram de lama, e na lama
passavam cadáveres de criancinhas com suas
bonecas; e também boiavam corpos de velhos e de
moços na e florescência do amor.
4.E as águas cumpriram seu serviço e sere tiraram
ao cabo de um dia; e que dou sobrea Terra uma dor
feita de mil dores.
5.Nisso vieram os sábios da cidade e puseram-se a
fazer a exegese da catástrofe; e concluíram que todo
mal provinha de certas povoações altaneiras,
desligadas do corpo social, a que sedava o nome de
favelas.
6.As quais, dependuradas na crista e no declive
dos morros, vertiam sobre a cidade, com algumas
notas de música, seus detritos e sua miséria, travando
o escoamento das águas.
7. E individualmente se chamavam Querosene,
Escondidinho, Pasmado, Martelo, Pretos Forros,
Cabrito, Vintém, Cantagalo, Curral das Éguas, Checo,
Bordel, Esqueleto, Catacumba e a pela tivos quitais.
8.Emereciamserdestruídas;pelo que se escolheu
a Favelada Catacumba, de nome exemplar, para ser
arrasada primeiro que as outras, e das outras a hora
soaria a seu tempo.
9.Emilicianos,na calada da noite, subiram ateliê
arrasaram-na, ateando fogo aos escombros; e os
sábios se persuadiram de que haviam acabado coma
causa primeira da enchente.
10. Embora não houvessem acabado com a causa
maior das favelas; e os favelados foram recolhidos a
uma casa de boa-vontade, enquanto seus pertences
tomavam rumo de uma praça de jogos, Maracanã
chamada.
11. E havendo entre esses alguns tamboretes e
cadeiras, bem podiam ser aproveitados para assento
de amadores das grandes justas de atletas, que era má
glória acidade.
12.E reinou sobre o morro um silêncio catacumba,
que nem a voz de um papagaio bicava.
13. E seus antigos moradores, depois de alguns
dias na casa de asilo, subiram a outro morro ainda
virgem e lá plantaram seus fogos e entoam sua música.
14.EoutravezchoveráoaborrecimentodeDeus,e
eles serão responsabilizados, expulsos, apartados de
seus bens, e descobrirão novos terrenos de cume, de
onde voltarão a ser tangidos.
15.Emilicia no sem número crescente de salojarão
ainda mais números os catacumbeiros.
16.A menos que o Senhor, em sua ira, se lembre de
consumara ameaça e promova a magna chuva final.
17. Da qual ninguém escapará; e depois dessa
ninguém será acusado e molestado por ninguém.
18.Amenosaindaque,apoderdepalavrasesutis
manobras,ossábiosconsigamdesviara atenção do
Senhor para outros mundos ainda mais errados que
este.
(ANDRADE,C.Drummond.ABolsa&aVida.PoesiaeProsa5 ed.Rio deJaneiro:Aguilar,1979,p.1161-1163.)
Neste poema em prosa, Carlos Drummond de Andrade adota o estilo bíblico num texto de forte teor de crítica social. Dos elementos do texto abaixo, oque melhor representa a linguagem bíblica imitada pelo autor é:
o emprego da palavra dilúvio ;
o emprego da palavra catacumba ;
a repetição da conjunção (polissíndeto);
a ordem inversa na expressão "Maracanã chamada" (linhas40-41);
o emprego da inicial maiúscula na palavra Senhor.