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Texto 3 para responder às questões de 8 a 10.
1 A casualidade quis que os meus estudos científicos,
que se orientavam por completo para o místico e para o
transcendente, estimulassem e produzissem, na minha
4 consciência, uma intensa luz sobre a luta constante das
minhas duas personalidades. Dia a dia, com a moral e com
o intelecto, aproximava-me a passos firmes dessa verdade,
7 por cuja descoberta incompleta fui condenado a tão
espantoso naufrágio: o homem não é autenticamente um,
mas sim dois. E digo dois, porque o meu próprio
10 conhecimento não foi mais além. Outros seguirão o meu
exemplo, outros me superarão e atrevo-me a profetizar que
no fim o homem será reconhecido como um ser habitado
13 por seres múltiplos, incongruentes e autônomos. Da minha
parte, e devido a características da minha existência,
avançava forçosamente em uma única direção. Aprendi a
16 reconhecer a primitiva dualidade do homem na minha
própria pessoa. As duas naturezas que lutavam na minha
consciência eram minhas, porque eu era, em essência,
19 ambas. Desde o início, ainda antes das minhas descobertas
científicas começarem a sugerir-me a possibilidade de tal
milagre, dediquei-me a pensar placidamente, como se se
22 tratasse de um sonho querido, na possibilidade de separar
esses dois elementos. Se cada um deles, dizia eu, pudesse
habitar em identidades diferentes, a vida libertar-se-ia do
25 que hoje se me afigura insuportável; o injusto poderia
seguir o seu caminho, despojado das aspirações e do
remorso do seu irmão gêmeo, mais reto; e o justo avançaria
28 com segurança e firmeza pela sua senda ascendente,
realizando as boas obras nas quais encontra prazer, e sem se
expor às desgraças e à penitência provocadas por esse
31 espírito perverso e desconhecido. Essa era a maldição da
humanidade: o fato de esses dois ramos incongruentes
estarem unidos com tanta força, que – nas agonizantes
34 entranhas da consciência – esses gêmeos opostos lutavam
35 continuamente entre si. Então, como dissociá-los?
STEVENSON, Robert Louis. O médico e o monstro. Série Clássicos da Literatura. Título original: Dr. Jekyll and Mr. Hyde. (Tradução de Marcos Marcionilo). São Paulo: Melhoramentos, 2008, p. 39 (fragmento), com adaptações.