Imagem de fundo

Da leitura global do texto, só NÃO é correto afirmar que a...

TEXTO I


O PODER DA LITERATURA


José Castello


Em um século dominado pelo virtual e pelo

instantâneo, que poder resta à literatura? Ao contrário

das imagens, que nos jogam para fora e para as

superfícies, a literatura nos joga para dentro. Ao contrário

5 da realidade virtual, que é compartilhada e se baseia na

interação, a literatura é um ato solitário, nos aprisiona na

introspecção. Ao contrário do mundo instantâneo em que

vivemos, dominado pelo “tempo real” e pela rapidez, a

literatura é lenta, é indiferente às pressões do tempo,

10 ignora o imediato e as circunstâncias.

Vivemos em um mundo dominado pelas

respostas enfáticas e poderosas, enquanto a literatura se

limita a gaguejar perguntas frágeis e vagas. A literatura,

portanto, parece caminhar na contramão do

15 contemporâneo. Enquanto o mundo se expande, se

reproduz e acelera, a literatura contrai, pedindo que

paremos para um mergulho “sem resultados” em nosso

próprio interior. Sim: a literatura – no sentido prático – é

inútil. Mas ela apenas parece inútil.

20___A literatura não serve para nada – é o que se

pensa. A indústria editorial tende a reduzi-la a um

entretenimento para a beira de piscinas e as salas de

espera dos aeroportos. De outro lado, a universidade –

em uma direção oposta, mas igualmente improdutiva –

25 transforma a literatura em uma “especialidade”, destinada

apenas ao gozo dos pesquisadores e dos doutores. Vou

dizer com todas as letras: são duas formas de matá-la. A

primeira, por banalização. A segunda, por um esfriamento

que a asfixia. Nos dois casos, a literatura perde sua

30 potência. Tanto quando é vista como “distração”, quanto

quando é vista como “objeto de estudos”, a literatura

perde o principal: seu poder de interrogar, interferir e

desestabilizar a existência. Contudo, desde os gregos, a

literatura conserva um poder que não é de mais ninguém.

35 Ela lança o sujeito de volta para dentro de si e o leva a

encarar o horror, as crueldades, a imensa instabilidade e

o igualmente imenso vazio que carregamos em nosso

espírito. Somos seres “normais”, como nos orgulhamos

de dizer. Cultivamos nossos hábitos, manias e padrões.

40 Emprestamos um grande valor à repetição e ao Mesmo.

Acreditamos que somos donos de nós mesmos!

Mas leia Dostoievski, leia Kafka, leia Pessoa,

leia Clarice – e você verá que rombo se abre em seu

espírito. Verá o quanto tudo isso é mentiroso. Vivemos

45 imersos em um grande mar que chamamos de realidade,

mas que – a literatura desmascara isso – não passa de

ilusão. A “realidade” é apenas um pacto que fazemos

entre nós para suportar o “real”. A realidade é norma, é

contrato, é repetição, ela é o conhecido e o previsível. O

50 real, ao contrário, é instabilidade, surpresa,

desassossego. O real é o estranho.

(...)

A literatura não tem o poder dos mísseis, dos

exércitos e das grandes redes de informação. Seu poder

55 é limitado: é subjetivo. Ao lançá-lo para dentro, e não

para fora, ela se infiltra, como um veneno, nas pequenas

frestas de seu espírito. Mas, nele instalada pelo ato da

leitura, que escândalos, que estragos, mas também que

descobertas e que surpresas ela pode deflagrar.

60___Não é preciso ser um especialista para ler uma

ficção. Não é preciso ostentar títulos, apresentar

currículos, ou credenciais. A literatura é para todos.

Dizendo melhor: é para os corajosos ou, pelo menos,

para aqueles que ainda valorizam a coragem.

(...)


(http://blogs.oglobo.globo.com/jose-castello/post/o-poder-da-literatura-444909.html - Acesso em: 21 fev 2017)

Da leitura global do texto, só NÃO é correto afirmar que a literatura


A

dá ao homem condições de autoconhecimento por meio de perguntas aparentemente frágeis e vagas.


B

coloca o homem em contato com sua verdade mais profunda e aterrorizante.


C

deve desequilibrar o leitor, roubando-lhe a certeza e instaurando a desconfiança.


D

atinge a todos, desmascarando suas mentiras, fragilidades e arrogâncias.