Leia o texto para
responder às questões de
01 a 05.
O príncipe do
Saara
Os mouros
de cabo Juby, no Marrocos,
chamavam-no
de “Senhor das Areias” e “Príncipe do
Deserto”. Era ali, no
posto da Sociedade Latécoère de Aviação,
que ele, piloto de
linha, responsável pelo correio da Espanha
e da África, desembarcava
de Toulouse antes de seguir sobre as dunas
do
Saara, no rumo de Casablanca e Dacar. O
“Senhor das
Areias” era o jovem aviador francês
Antoine de Saint-Exupéry,
que sobrevoava a paisagem com a confiança
de quem realmente
acreditava na generosidade da natureza. “O
deserto é
belo porque esconde um poço em algum
lugar”, escreveu.
Terceiro filho do
conde Jean de Saint-
Exupéry, que morreu
quando ele estava com 4 anos de idade,
Antoine foi educado
no colégio jesuíta de Notre Dame de Saint-
Croix, em
Mans, e depois na Suíça, durante a
Primeira Guerra Mundial
(1914-1918). Poderia ter voltado ao
castelo de Saint-Mauricede-
Rémens, em Lyon, onde nascera em 29 de
junho de 1900,
talvez o melhor refúgio para um futuro
escritor, mas a morte
do pai havia comprometido as finanças da
família e Antoine
precisava trabalhar. Ele se decidiu pela
solidão entre as nuvens,
pois voar era o sonho da infância. E se
tal escolha lhe
aqueceu e enriqueceu a vida, foi também a
causa de sua
morte.
Mesmo que a fortuna da
família tivesse
sido preservada,
porém, ao piloto jamais interessaria a
vida fácil de um aristocrata
francês e esse, digamos, pendor está nas
páginas de
Terra dos Homens, livro de 1939,
traduzido
em português por
Rubem Braga: “Esta noite de voo e suas cem
mil estrelas,
esta serenidade, esta soberania de algumas
horas, o dinheiro
não compra”.
Nada compraria as sensações
de cada voo, a
observação
das minúcias da vida que a maioria costuma
desprezar,
por obscurantismo ou inexplicável soberba:
essas eram a
substância de um grande escritor, matéria-
prima impossível
de ser inteiramente extraída dos bosques
da infância no castelo
de Lyon. Era preciso experimentar,
misturar, separar riquezas
no crisol e assim procedeu Exupéry, como
se infere
de sua obra, pequena, se comparada à do
transbordante Balzac,
por exemplo, porém imensa, se
considerarmos a literatura
tão indispensável, tão vital quanto um
gole de água no deserto.
[...]
Saint-Exupéry é mais conhecido, ou
melhor,
é popularíssimo,
não pelos belos romances inspirados nas
peripécias ao
comando daqueles precários aviões dos anos
20 e 30; esses
alimentaram a paixão de quem gostava (e
gosta) de boas
aventuras contadas com excelência; a fama
desmedida só
chegou postumamente, com O Pequeno
Príncipe, ilustrado
pelo autor e editado um ano antes de sua
morte. Segundo
seu principal biógrafo, Paul Webster,
nenhum livro revela melhor
os dilemas internos do escritor. Romance
adulto, carregado
de símbolos, foi inexplicavelmente
recebido como apenas
um livrinho para crianças, e, depois de
uma campanha de
marketing, virou também a leitura
predileta das misses do
mundo inteiro.
JAPIASSU, Moacir. O príncipe do
Saara. MIT
Revista. São Paulo: Custom,
jun. 2012, p. 61-62. [Adaptado].