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Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Parece fato pequeno, não é. (linhas 1 e 2)
A segunda oração do período acima se classifica como
oração coordenada sindética aditiva.
oração coordenada sindética adversativa.
oração coordenada assindética aditiva.
oração principal.
oração coordenada assindética adversativa.