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“Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem diria disse que a gente não pode cair¿ Quem disse que a gente já não caiu¿ Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava continentes todos numa grande Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo. Quem sabe se, quando o astronauta Iúri Gagárin disse “a Terra é azul”, ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que nós pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver. Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que se podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui? O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.” (KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Pág. 58.)
“Antropoceno”, a que o pensador indígena Aílton Krenak faz referência, é um conceito muito estudado e discutido atualmente no campo das ciências sociais por muitos sociólogos e antropólogos, a exemplo de Bruno Latour. Esse termo:
significa o mesmo que “Multinaturalismo”, por oposição ao “Multiculturalismo” que se fez muito presente na visão antropocêntrica ao longo da história.
é a visão que une homem e natureza, muito presente nas sociedades indígenas.
Possui uma similaridade com o conceito de “Perspectivismo Ameríndio” de Eduardo Viveiros de Castro.
foi popularizado em 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel de química em 1995, para designar uma nova época geológica caracterizada pelo impacto do homem na Terra.
é o oposto do conceito de “Antropocentrismo”. Ou seja, é a visão segundo a qual tudo já está previamente definido na vida em sociedade por forças que extrapolam a capacidade humana, como por exemplo a força da natureza ou dos deuses, como é muito comum em sociedades simples ou arcaicas.
Quando os cientistas sociais acrescentam o adjetivo “social” a um fenômeno qualquer, estão aludindo a um estado de coisas estável, a um conjunto de associações que, mais tarde, podem ser mobilizadas para explicar outro fenômeno. [...] O que tenciono fazer, no presente livro, é mostrar por que o social não pode ser construído como uma espécie de material ou de domínio e assumir a tarefa de fornecer uma “explicação social” de algum outro estado de coisa.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria
do ator-rede. Salvador: EDUFBA-EDUSC, 2012, com adaptações.
Com relação à Teoria Ator-Rede (ANT), de Bruno Latour, assinale a alternativa correta.
As relações são compreendidas como redes de interdependências que formam figurações sociais generalizáveis, tornando possível o estudo dos fenômenos sociais no campo da antropologia.
A noção de “social” promove a falsa compreensão de que, por meio da pesquisa, encontra-se facilmente um conjunto de associações que podem fornecer explicações que permitam generalizações.
O ator-rede é caracterizado pelas relações de sociabilidade que o tornam um ator social passível de ser compreendido nas próprias regularidades e generalidades, permitindo sua análise no campo antropológico como indivíduo previsível e generalizável.
A função do antropólogo é compreender a estabilidade do social, e os aspectos fixos sustentam os grupos, observando os aspectos estruturais que os tornam passíveis de serem compreendidos em suas práticas.
O delineamento das redes dos grupos é uma tarefa do antropólogo, pois os atores estudados estão imersos em redes que, para eles, são imperceptíveis, sendo improvável que consigam mapear o contexto social nos próprios sentidos simbólicos.
Leia o trecho a seguir
“A Grande Divisão interior explica, portanto, a Grande Divisão exterior: apenas nós diferenciamos de forma absoluta entre a natureza e a cultura, entre a ciência e a sociedade, enquanto que todos os outros, sejam eles chineses ou ameríndios, zandés ou barouyas, não podem separar de fato aquilo que é conhecimento do que é sociedade, o que é signo do que é coisa, o que vem da natureza como ela realmente é daquilo que suas culturas requerem. Não importa o que eles fizerem, por mais adaptados, regrados e funcionais que possam ser, permanecerão eternamente cegos por esta confusão, prisioneiros tanto do social quanto da linguagem. Não importa o que nós façamos, por mais criminosos ou imperialistas que sejamos, escapamos da prisão do social ou da linguagem e temos acesso às próprias coisas através de uma porta de saída providencial, a do conhecimento científico. A partição interior dos não-humanos define uma segunda partição, desta vez externa, através da qual os modernos são separados dos pré-modernos. Nas culturas Deles, a natureza e a sociedade, os signos e as coisas são quase coextensivos. Em Nossa cultura, ninguém mais deve poder misturar as preocupações sociais e o acesso às coisas em si”
(LATOUR, Bruno. 1994. Jamais fomos modernos: ensaio de Antropologia simétrica. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed.34, 1991. p. 99).
Qual é o argumento de Latour a respeito da ciência moderna?
O conhecimento científico moderno opera efetuando uma separação entre objetos que são híbridos.
Destaca como o avanço científico permite ver aquilo que é inacessível a outros grupos.
A ciência moderna reconhece mais claramente a influência dos objetos não-humanos.
Em outras culturas, a natureza precede o social.
Segundo Latour (2005), a Teoria do Ator Rede oferece uma nova perspectiva sociológica que está problematizando a questão da modernidade, bem como oferecendo um novo enfoque analítico. Com relação a essa perspectiva,
I. as redes sociotécnicas são formadas por atores humanos e não humanos. Os não humanos são dotados de agência, pois têm a capacidade de atuar sobre outros atores heterogêneos.
II. o projeto da modernidade nunca se realizou efetivamente, pois é uma ficção a separação proposta em termos de humanos e não humanos, bem como das diferentes áreas de conhecimento. Afinal, jamais fomos modernos.
III. a formação de híbridos contribui para observar a complexidade das redes.
IV. os intermediários transformam, traduzem, pois seus dados de entrada nunca predizem bem os dados de saída. Já os mediadores transportam os significados, pois seus dados de entrada bastam para definir seus dados de saída.
Está INCORRETA apenas a afirmativa
IV.
I.
III.
II.
A Teoria Ator‐Rede (ANT ‐ Actor‐Network Theory), segundo Latour e outros, permite compreender a emergência, constituição e estabilização de objetos teóricos, naturais ou técnicos, enquanto atores em rede, formados pelas relações entre os elementos heterogêneos que os constituem. Com relação à Teoria Ator‐Rede (ANT), analise as afirmativas a seguir.
I. A unidade de análise da ANT é o plano das relações materiais transversais que unem vários aspectos do mundo, indo do físico ao político, passando pelo tecnológico, semiótico e psicológico.
II. Para a ANT, rede é uma metaorganização que reúne humanos e não‐humanos, os quais agem tanto como mediadores, quanto como intermediários uns dos outros.
III. A ANT fornece uma explicação social dos fatos científicos ou técnicos, identificando o impacto das ações individuais na rede das relações de poder que legitimam a ciência.
Assinale:
se somente a afirmativa I estiver correta.
se somente a afirmativa II estiver correta.
se somente a afirmativa III estiver correta.
se somente as afirmativas I e II estiverem corretas.
se todas as afirmativas estiverem corretas.


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