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O fato de que o conflito seja uma característica definidora da política está na raiz do desconforto em relação à própria política. Com frequência, ela aparece como um veiculo para sua própria superação: a harmonia, que é a ausência de discórdia, é o traço comum aos diversos mitos e utopias políticos. Mas também ê uma característica das distopias, marcadas pela ausência de contestação [...]. O antagonismo político ê, assim, uma manifestação de resistência aos padrões de dominação vigentes na sociedade [...]. A ideia de um consenso de base em relação aos valores ético-políticos é inconcebível, caso a realidade da dominação seja levada em conta - a não ser que se imagine que os interesses sejam deixados de lado na busca desse consenso, isto é, que se mergulhe uma vez mais no idealismo e na negação da política.
(Adaptado de: MIGUEL. Luis Felipe. Consenso e conflito na teoria democrática: para além do "agonismo". São Paulo: Lua Nova, 1992, pp. 13-43, 2014)
O texto acima corresponde
a uma argumentação a respeito da antinomia entre política e conflito em um cenário de institucionalidade democrática, de vigência do Estado de direito.
à percepção de que, por conta da dominação política transparecida pela violência cotidiana, só existe a busca por consenso no jogo democrático.
a uma defesa das teorias políticas contemporâneas que conferem primazia ao consenso e ao debate democrático racional e livre, como John Rawls e Jürgen Habermas.
à necessidade de superar o conflito por meio da atenuação do sentimento de injustiça causado pela ausência de reconhecimento público a determinados atores políticos.
à irredutibilidade do conflito nas relações políticas em face da manutenção de diversas formas de dominação ao longo do tempo, inclusive no interior da própria democracia liberal.