Considere os textos abaixo para responder as questões 26 a 29.
TEXTO I.
Comida é pasto
Mostrando que
com comida não se brinca, o jornalista norte-americano Michael Pollan vem à
Flip* defender que voltar à cozinha é um ato político.
“A geladeira de Michael Pollan não tem
Coca-Cola, margarina nem leite de amêndoas, nova mania
das dietas
americanas. Tem saquinhos de plástico com verduras e frutas, potes com feijão e restos do
jantar anterior, além de iogurte e leite de caixinha.
Algumas coisas vêm da própria horta, montada na frente de sua casa em Berkeley, na
Califórnia.
No centro da pequena plantação, rodeada por pés de tomate, abóbora e manjericão, há uma grelha
onde ele costuma preparar um porco inteiro uma vez por ano.
[...]
Michael Pollan é um jornalista
americano de 59 anos que virou guru da vida saudável ao passar
os últimos 15 anos escrevendo reportagens e livros sobre os exageros da indústria alimentícia
e alertando sobre nossos excessos à mesa. “ Coma comida, não muita, sobretudo vegetais”, diz
seu mantra, explicado no livro “Em Defesa da Comida” (2008), que critica as dietas ocidentais
focadas em nutrientes e não em alimentos de verdade.
Ele também lançou o manual “Regras da Comida” (2009), com 64 dicas bem práticas e cheias
de
bom senso como: “Não coma nada que sua avó não reconheceria como comida” ou “Compre pratos e
copos menores”.
No livro mais recente, “Cozinhar -
Uma História Natural da Transformação” (ed. Intrínseca),
lançado em 2013 nos EUA e agora no Brasil, ele vai além e pede um comprometimento maior em
nome da saúde. Diz que devemos todos voltar à cozinha. Para quem cresceu longe do fogão,
parece ser seu conselho mais difícil.
“Cozinhar sua própria comida é um ato político muito
importante”, diz Michael, um homem alto e
charmoso, de fala mansa e risada fácil. “Tem a ver com independência e autonomia. Abrimos mão
de muito poder ao deixar as grandes corporações cozinharem para nós porque elas decidem quais
fazendas vão apoiar e, normalmente, são bem aquelas que fazem um tipo de agricultura que
certamente você desaprovaria”, diz, fazendo referência a práticas como confinamento cruel de
animais e monoculturas gigantescas.
TEXTO II
Ovos, um bom começo
Digo a ele que eu não cozinho, nem minha mãe, e ele quer
saber como fui alimentada. Empregadas
domésticas que também fazem comida são comuns no Brasil, afirmo. “Pelo menos, era um humano
cozinhando para você, isso é bom. Pena que nem todos têm esse privilégio”, diz. “Ovos são um
bom começo”, ele elogia, quando conto que sei fazer omelete.
Um dos problemas de cozinhar, acredita o jornalista, é a lembrança dos velhos
arranjos
sexistas de poder dentro de casa. Para ele, foi justamente quando homem e mulher começavam a
pensar em negociar a divisão de tarefas domésticas que a indústria do fast-food apareceu para
resolver o embate. A “liberação feminina” virou tema de propaganda de frango frito nos
EUA.
“Se vamos reviver a cultura da cozinha, não
podemos voltar ao passado. Precisa ser uma cultura
diferente, algo a ser compartilhado por homens, mulheres e crianças”, diz o autor de “O Dilema
do Onívoro” (2006), seu primeiro livro sobre a indústria alimentícia, que o lançou como um
novo pensador dos hábitos alimentares.
O livro veio depois de uma série de artigos sobre agricultura, como um publicado pelo
“New
York Times”, no final dos anos 1990, sobre sua visita a uma plantação de batatas geneticamente
modificadas. Tudo era controlado por computador porque um dos elementos químicos usados para
combater manchas escuras era tão tóxico que o fazendeiro precisava ficar longe do campo por
três dias.
As manchas só apareciam
nas batatas daquela variedade, a única que a rede McDonald's aceitava
comprar, já que as batatas fritas da rede precisam ser iguais no mundo todo. “É fácil culpar o
fazendeiro, mas nós demandamos um certo tipo de produto. Somos cúmplices.”
[...]
Quando nos
encontramos, ele estava animado com sua primeira viagem ao Brasil. Pretendia passar
alguns dias em Salvador antes de ir ao Rio e a Paraty para a Flip. Estava feliz com o encontro
que tinha marcado com o médico brasileiro Carlos Augusto Monteiro, professor titular da
Faculdade de Saúde Pública da USP que desenvolve pesquisas comparando comidas pelo seu grau de
processamento e não apenas pelos nutrientes.
Está
curioso para conhecer as churrascarias: “O gado ainda pasta ao ar livre?”, indaga.
Michael é daqueles que, antes de pedir, quer saber a origem da carne. “Comer é
complicado.”
*Flip — Feira
Literária Internacional de Paraty
Revista
Serafina / Folha de São Paulo, agosto/2014. Comida é pasto, por Fernanda Ezabella.
(fragmentos).Disponível em
< http://folha. uol.com. br/fsp/ilustrada >