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Texto para as questões 1 a 20
Os peixes que estão se viciando em drogas ilegais
Cerca de 269 milhões de pessoas em todo o mundo usam drogas a cada ano. E uma questão básica de biologia acaba,
muitas vezes, sendo esquecida nesta história: tudo o que entra precisa sair.
Os esgotos estão inundados com drogas que são excretadas do corpo, junto aos componentes químicos fragmentados
que têm efeitos semelhantes aos das próprias drogas. Uma grande quantidade de esgoto também chega aos rios e águas
5 costeiras sem tratamento. Uma vez no meio ambiente, as drogas e seus subprodutos podem afetar a vida selvagem.
Em um estudo recente publicado no Journal of Experimental Biology, pesquisadores da República Tcheca investigaram
como a metanfetamina - um estimulante com cada vez mais usuários em todo o mundo - pode estar afetando a truta-marrom
selvagem.
Eles examinaram se as concentrações de metanfetamina e um de seus subprodutos, a anfetamina, que foram estimadas
10 a partir de outros estudos que mediram as concentrações de drogas ilícitas nos cursos de água, poderiam ser detectadas no
cérebro da truta-marrom. Eles também analisaram se essas concentrações eram suficientes para causar dependência nos
animais.
As trutas foram expostas à droga em grandes tanques durante oito semanas e, em seguida, colocadas em abstinência,
ficando por dez dias em tanques que não continham a droga. Durante esse tempo, os pesquisadores testaram a preferência dos
15 peixes por água limpa ou contendo metanfetamina e compararam com as respostas de peixes que nunca haviam sido expostos
à droga.
As descobertas foram intrigantes. Os peixes expostos à metanfetamina preferiram a água contendo a droga, enquanto
tal preferência não foi demonstrada pelos peixes do grupo de controle. Os pesquisadores também descobriram que, durante o
período de abstinência, as trutas expostas à metanfetamina se moviam menos. Eles interpretaram isso como um sinal de
20 ansiedade ou estresse - típicos de abstinência de drogas em humanos.
A química cerebral dos peixes expostos também diferia dos não expostos foram detectadas várias mudanças nas
substâncias químicas do cérebro que correspondem ao que é visto em casos de dependência em humanos. Mesmo depois que
os efeitos comportamentais diminuíram após 10 dias de abstinência, esses marcadores no cérebro ainda estavam presentes.
Isso sugere que a exposição à metanfetamina pode ter efeitos duradouros, semelhantes aos que são observados nas pessoas.
25 ___ Se as trutas estão "curtindo" as drogas, como parecem estar no estudo recente, podem ficar inclinadas a rondar
tubulações por onde o efluente é descarregado. Os peixes podem se comportar de forma parecida com a que observamos em
humanos que sofrem de dependência, não apenas a partir deste experimento, mas de vários estudos com diferentes espécies
de peixes.
Uma das características do vício em drogas é a perda de interesse por outras atividades - mesmo aquelas que
30 geralmente são altamente motivadas, como comer ou se reproduzir. É possível que os peixes comecem a mudar seu
comportamento natural, causando problemas na sua alimentação, reprodução e, em última instância, na sua sobrevivência. Eles
podem, por exemplo, ser menos propensos a escapar de predadores.
A exposição às drogas não afeta apenas os peixes em si, mas também seus descendentes. Nos peixes, o vício pode
ser herdado ao longo de várias gerações. Isso poderia ter implicações duradouras para os ecossistemas, mesmo se o problema
35 fosse resolvido agora.
Este não é o primeiro estudo a descobrir drogas ilícitas na vida selvagem. Em 2019, cientistas do Reino Unido
encontraram cocaína em camarões de água doce em todos os 15 rios em que coletaram amostras. Curiosamente, eles detectaram
drogas ilícitas com mais frequência do que alguns produtos farmacêuticos comuns.
Mas os efeitos mais amplos dessas drogas permanecem em grande parte desconhecidos. Há, no entanto, estudos
40 abrangentes sobre os efeitos dos produtos farmacêuticos nos rios. Os medicamentos também não se fragmentam totalmente em
nossos corpos e chegam às estações de tratamento de esgoto pelas fezes e a urina. A maior parte é eliminada com efluentes
residuais, mas outra parte entra nos rios ao escoar de aterros sanitários ou campos agrícolas em que o esgoto humano é usado
como fertilizante.
A vida selvagem presente em rios e águas costeiras, onde o efluente é despejado, está exposta a coquetéis de
45 medicamentos - de analgésicos a antidepressivos. Peixes que viviam rio abaixo de algumas estações de tratamento de esgoto
"mudaram" do sexo masculino para feminino em poucas semanas devido à exposição a produtos químicos desreguladores de
hormônios encontrados em pílulas anticoncepcionais.
Estudos recentes mostram que os antidepressivos podem causar uma ampla variedade de mudanças comportamentais
em organismos aquáticos, desde agressão, atração pela luz e ousadia crescente.
50 ___ O vício em drogas é um problema de saúde global que pode devastar comunidades, e lidar com suas consequências
ambientais vai sair caro. Um estudo estimou que custaria mais de US$ 50 bilhões para modernizar as estações de tratamento de
esgoto da Inglaterra e do País de Gales para que sejam capazes de remover essas substâncias químicas.
Pode parecer óbvio que drogas receitadas e ilegais destinadas a mudar o comportamento humano também mudem o
comportamento da vida selvagem. Mas esse problema é potencialmente muito mais difundido e complexo.
55 ___ Nem sequer sabemos se substâncias químicas sintéticas presentes em artigos domésticos de uso diário, como
cosméticos, roupas e produtos de limpeza, podem afetar o comportamento das pessoas e de outras espécies. Um grupo
internacional de cientistas fez um apelo às empresas e órgãos reguladores para verificar seus efeitos tóxicos no comportamento,
como parte das avaliações de risco de novos produtos químicos.
Se quisermos controlar a quantidade de produtos farmacêuticos em nossos cursos de água, é preciso fazer mais para
60 melhorar a filtragem nas estações de tratamento de esgoto, e forçar as empresas de água a assumir mais responsabilidade para
garantir que o efluente não afete a vida selvagem.
(Matt Parker e Alex Ford. Matt Parker é professor de neurociência e psicofarmacologia na Universidade de Portsmouth, no
Reino Unido. Alex Ford é professor de biologia na mesma instituição. BBC Future (The Conversation), 6 agosto 2021, com
adaptações.)
Assinale a alternativa em que a palavra MAIS desempenhe papel adverbial.
...um estimulante com cada vez mais usuários em todo o mundo... (linha 7)
...eles detectaram drogas ilícitas com mais frequência... (linhas 37 e 38)
...os efeitos mais amplos dessas drogas... (linha 39)
...é preciso fazer mais para melhorar a filtragem... (linhas 59 e 60)
...a assumir mais responsabilidade... (linha 60)