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Lucas Tauil, autor do texto, é um velejador. No decorrer do...

INSTRUÇÃO: Leia, com a atenção, o texto abaixo e responda às questões que se seguem.


Entre tempos


1 O tempo e o medo, esses meus dois velhos conhecidos acordaram comigo no dia de hoje. Antes de fazer a

barba, notei, ao me olhar no banheiro, o tempo estampado nas linhas fundas, marcas provenientes dos sorrisos e

das alegrias que vivi, mas também das mágoas que colecionei ao longo da jornada. Percebo ali, desenhada em vidro

e luz, a presença sólida daquilo que já foi. Já o medo veio comigo da cama. Ali no mesmo espelho enxergo o

5 passado e, nas sombras refletidas, o medo do porvir, do não vir a ser. Percebo que esse sentimento, o medo, está

sempre mais adiante, ali na frente à espreita.

Cansado dessa narrativa que me aprisiona, sem espaço entre o que já não é mais e o vir a ser, esqueci a

lâmina de barbear na bancada do banheiro e, apesar da aspereza que trago ainda no meu rosto, decidi ir ao

encontro da luz do Sol, que brilha do lado de fora. Encontro, então, uma brecha para me aquecer entre as frias

10 nuvens do outono. E recebo cada raio de luz como uma bênção. Presente entre minhas sombras e a luz do Sol,

saboreio o calor daquele momento.

A escolha de não correr das emoções ou desviar a atenção abre espaço para o inusitado. Como quem não

quer nada, me familiarizo com o claro e o escuro do agora. Encontro um eu bastardo, desconhecido por ser sempre

escorraçado quando se apresenta. Sem pressa de julgar ou reagir, percebo e observo pensamentos, desejos

15 sentimentos com cada um de meus sentidos. Acolher o que se apresenta e me permitir ficar vulnerável tece uma

rede de tolerância que fermenta o sentimento de pertencimento, de que faço parte de algo muito maior. Fazer parte

me dá, então, chão. E isso acontece mesmo quando estou navegando em pleno oceano.

Estar com o que é, não apenas com o que me agrada, cria reconhecimento e clareza de onde estou. Nos

meus anos de vela e mar aprendi que para traçar uma rota não basta o destino, é preciso ter clareza também do

20 ponto de partida. Assim recebo a mim mesmo, com minhas dores e alegrias, o que gosto e o que é duro de ver. Em

travessia, é o observar do ritmo das mudanças que nos mantém no rumo. Com as linhas se aprofundando em minha

face, os ciclos são reconhecidos mais facilmente, com os velhos mestres aprendo a tomar os dias de chuva como

quem pede e, mesmo no meio do nevoeiro, levo o barco devagar e atravesso as águas.

Mais tolerante sobre quais são as minhas limitações, vou tecendo pequenos atos para cuidar mais de mim

25 mesmo. Antes de dormir, percebo que a cama permanece desarrumada, me lembrando do dia atribulado que tive.

Troco os lençóis. Me deito no toque suave da flanela limpa e me preparo para mais um dia, sem medo do tempo ou

do próprio medo, adormeço, finalmente, ancorado no agora.


(FREITAS, Lucas Tauil. Entre tempos. Revista Vida Simples, jun. 2018, p. 54.)

Lucas Tauil, autor do texto, é um velejador. No decorrer do texto, constrói metáforas, associando o navegar com o viver. Assinale a alternativa em que NÃO se verifica o uso dessa estratégia discursiva.


A

“[...] adormeço, finalmente, ancorado no agora.” (Linha 27)


B

“Com as linhas se aprofundando em minha face, os ciclos são reconhecidos mais facilmente, com os velhos mestres aprendo a tomar os dias de chuva como quem pede e, mesmo no meio do nevoeiro, levo o barco devagar e atravesso as águas.” (Linhas 21-23)


C

“Fazer parte me dá, então, chão. E isso acontece mesmo quando estou navegando em pleno oceano.” (Linhas 16-17)


D

“Antes de dormir, percebo que a cama está desarrumada, me lembrando do dia atribulado que tive. Troco os lençóis. Me deito no toque suave da flanela limpa e me preparo para mais um dia [...]” (Linhas 25-26)