Imagem de fundo

O texto “Sangue de barata” trata de assunto comum do...

SANGUE DE BARATA

-

1-----------Passei por um casal discutindo num ponto de ônibus. A moça estava uma arara, mas aludiu a outro

bicho: “Não tenho sangue de barata!” gritava ela pra justificar seu destempero. Passei reto, mas encasquetei:

barata teria sangue mesmo? Pelo que pesquisei, tem uma gosma chamada hemolinfa que não apresenta

pigmentos como a hemoglobina, e por isso é transparente e não conduz sensibilidade até o coração, como

5--acontece com os seres humanos. Daí o surgimento da expressão popular “ter sangue de barata”, que significa

que a pessoa não reage quando é atingida, fica apática. Não ter sangue de barata é uma virtude. Seres

humanos são reagentes por natureza, lutam pelos seus desejos, brigam por suas ideias, inflamam-se. Porém,

fiz um rápido flashback dos momentos em que eu deveria ter feito a casa cair, soltado os cachorros e demais

reações de quem tem sangue de verdade correndo nas veias, e concluí que tenho uma infeliz familiaridade

10--com o tal inseto.

Minha sensibilidade alcança o coração, lógico, mas não provoca grandes curtos-circuitos. [...]. Nasci

pouco antes de completar os nove meses de gestação e deve ter sido essa pressa em existir que me fez chegar

aqui incompleta. Não deu tempo de incluir a raiva no meu DNA. Amo, sofro, choro, me frustro, me encanto,

me assusto, me emociono e cometo seis dos sete pecados capitais, menos a ira, que faltou no meu código

15--genético.

Tenho, pois, sangue de barata.

Por um lado, é útil. [...]. Não chego a ser o sonho do Procon: reivindico meus direitos legais, mas

quando o caso é de discordância ou falta de sintonia, simplesmente sumo, desapareço. Prefiro tratar da minha

vida a vencer uma discussão. Pode não ser nobre, mas só eu sei o que essa inclinação para a paz me devolve

20--em benefícios, e não são poucos. Quase tudo que conquistei na vida (desconte o exagero) foi por ter sangue de

barata. O silêncio em meio a discussões estéreis, a confiança de que as pessoas cansarão se eu não der corda

para suas maluquices, a compaixão por quem não tem condição de expandir-se, a calma diante de

provocações, a tolerância com alguns desaforos e a paciência para aguardar a hora exata de cair fora. Falando

nisso, o que o Brasil mais tem feito é testar o meu sangue de barata. Não creio que mudarei de tática, mas a

25--continuar o avanço do nosso atraso, a barata pode voar.

(Martha Medeiros. Adaptado de: https://gauchazh.clicrbs.com.br. Acesso em: 30 de outubro de 2017.)

O texto “Sangue de barata” trata de assunto comum do cotidiano sobre o qual a autora, de forma leve e bemhumorada, tece reflexões, sendo um exemplo do gênero


A

Classificados.


B

Carta.


C

Notícia.


D

Crônica.