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Quanto mais difícil, melhor
1 Assim como os historiadores, bibliotecários e
arquivistas, vivo profissionalmente às voltas com
livros centenários, documentos antigos e recortes
amarelados. Isso significa coabitar com poeira, mofo
e populações inteiras de fungos. O problema é que
sou alérgico a bolor e sofro as consequências do
manuseio dessas relíquias. Um amigo me perguntou
se uso máscara para trabalhar. Respondi: “Não. Uso
espirro. A cada espirro voam várias gerações de
fungos”.
2 A incompatibilidade entre certas condições
físicas e a profissão de seus portadores pode ser
dramática. Minha amiga, a feminista Rose Marie
Muraro, nascida quase cega, precisava usar óculos
muito grossos e lupa para conseguir ler. E qual era
sua profissão? Leitora da Editora Vozes. Portinari,
para muitos o maior pintor brasileiro, era alérgico a
certas tintas. Morreu em 1962, envenenado por elas,
depois de 40 anos de trabalho. E Garrincha, cujos
dribles você sabe, tinha uma perna para dentro e
outra para fora, como dois parênteses lado a lado: )).
3 Beethoven era surdo, o que, pelo visto, não
lhe fazia diferença. Django Reinhardt, imortal
guitarrista do jazz, tinha dois dedos paralisados na
mão esquerda. E a Harold Lloyd, um dos grandes da
comédia no cinema mudo americano, faltavam dois
na direita — e foi sem eles que escalou um edifício em
Nova York em seu filme “O Homem-Mosca” (1923),
fazendo ele próprio quase todas as cenas.
4 John Wayne, Humphrey Bogart, James Stewart,
Frank Sinatra, Bing Crosby, Fred Astaire, Gene
Kelly, Henry Fonda e Sean Connery tinham algo em
comum: eram carecas. Não que haja problema nisso
(e eu mesmo já posso tecnicamente ser chamado
de), mas, na velha Hollywood, Ava Gardner, Grace
Kelly e Raquel Welch nunca poderiam ser beijadas
por carecas, ainda que galãs. Sem problema — as
perucas eram tão perfeitas que ninguém notava.
5 Este artigo deve me custar uns cinco espirros.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/
ruycastro/2023/12/quanto-mais-dificil-melhor.shtml?pwg
t=kye73frks3762ppiv3c8ms8agtyutnr6i2zmqyam6pqtcz
5u&utm_source=whatsapp&utm_medium=social&utm_
campaign=compwagift. Acesso em: 20 dez. 2023.Adaptado.
“Este artigo deve me custar uns cinco espirros.”
A partir dessa frase, que encerra o texto, percebe-se que
“espirros” tem sentido metafórico, representando as “tristezas” por ele mencionadas no texto.
o autor tem certeza absoluta quanto às consequências de escrever essa crônica.
o autor entra em crise emocional ao revisitar memórias e espirra cinco vezes contadas.
o papel usado pelo autor para escrever essa crônica produz nele uma reação alérgica.
os personagens e as situações a que o cronista se referiu são antigos, como relíquias empoeiradas.