O golpe quase perfeito da avó em seus netos
Por Fabrício Carpinejar
- É comum ver idosos sofrendo golpes bancários, repassando suas senhas __ estranhos no
- caixa automático, atendendo ligações de impostores como se fossem seus gerentes, assinando
- documentos em branco que são, na verdade, empréstimos consignados, ou acreditando em
- bilhetes premiados, ou ainda em falsos sequestros de familiares.
- Minha mãe de 84 anos inverteu a lógica e se vingou de todas as fraudes amargas
- experimentadas pela sua geração, de todos os rombos ilícitos no orçamento de sua faixa etária.
- Ela tem aplicado um golpe perfeito nos netos. Merecia um prêmio de malandragem. Nem um
- hacker seria tão liso, tão escorreito, tão invisível.
- Ela sempre dá um dinheirinho de presente de aniversário. Uma quantia para que cada
- neto possa comprar livremente o que deseja. É uma mesada inesperada. Os pais são proibidos
- de visualizar a cifra, para não ficarem com inveja ou recorrerem __ inoportuna pressão de rateio
- pelas despesas da casa.
- Trata-se de uma saída criativa para não se sentir velha com os mimos. Depois de oferecer
- um liquidificador e um jogo de panelas que, evidentemente, não foram bem recebidos pelos
- adolescentes, ela desistiu de ir às lojas. Ela finge que não gostaria de adotar essa lembrança de
- natureza impessoal, alegando que foi o jeito que encontrou para não gerar constrangimento com
- um embrulho inconveniente, um agrado datado, e não errar mais o gosto deles. Só que a sua
- generosidade vem na forma de um cheque.
- Que jovem vai se deslocar para um endereço físico, atravessar o incômodo da porta
- giratória de detector de metal e da revista dos guardas, suportar o lento chamado por senhas
- para descontar hoje um cheque no banco? Que jovem, totalmente digital, entrará numa fila para
- tirar o montante?
- Os netos nasceram com dedos na tela de um celular. Estão acostumados com Pix, com
- transferências imediatas, com internet banking. Nunca tiveram um talão de cheques na vida.
- Sequer entendem os espaços __ serem preenchidos e aquele valor em reais e centavos a ser
- desdobrado por extenso na caligrafia. Levariam um susto com o “h” na frente do “um”. Achariam
- que a convenção é analfabetismo.
- Eles não pisam em bancos, não perdem tempo com burocracia. Pagam suas contas no
- próprio aparelho, a partir do código de barras das faturas. É assim também com passagens,
- hotéis, cinema, shows. Eu mesmo, cinquentão, já não uso um cheque há mais de vinte anos. É
- tudo feito no cartão de crédito. Nem notas carrego na carteira.
- O ardil da vó com os netos conta com 100% de aproveitamento. O que está acontecendo
- é o óbvio: os cheques jamais são descontados. E a minha mãe vive presenteando e sendo
- carinhosa sem gastar um único tostão de sua conta.
- Como os netos dispunham de trinta dias de validade para apresentação do cheque na
- agência, o tempo acabou expirando. As folhinhas prescreveram. Restou de presente o autógrafo
- simbólico da avó.
- O plano deu certo até o momento, caducando as benesses de 2023 para trás. Com os
- próximos cheques, não será mais assim. Os bancos já se precaveram contra o “golpe da vó”.
- Criaram um dispositivo dentro dos aplicativos do celular em que você pode fotografar o cheque
- e descontá-lo. Por essa captura de imagem, ela não esperava. Estou curioso para saber qual
- será a sua próxima estratégia.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/carpinejar/noticia/2024/02/o-golpe-quase-perfeito-da-avo-em-seus-netos-clsw7zw4c000201ewxgmo1gam.html – texto adaptado especialmente para esta prova).