Não estou falando de abelhas
Por Pedro Guerra
- Começo de ano é sempre um exercício de paciência para qualquer ansioso. Com o ritmo
- desacelerado graças às recentes festas e às férias de “todo mundo menos eu”, as primeiras
- semanas desse novo ciclo parecem engatinhar. E o que pode ser mais desafiador em um mundo
- que vive apre...ado do que aprender a reduzir a marcha? Com certeza entender que está tudo
- bem fazer o que se precisa com calma.
- Já faz algum tempo que li que uma abelha pousa em 40 mil flores todos os dias. Em sua
- busca pelo pólen e pelo néctar, a jornada frenética conver...e em um número antagônico, algo
- nada expressivo: uma única abelha pode produzir apenas cinco gramas de mel por ano. Fazendo
- contas rápidas, é necessário visitar 5 milhões de flores para que um só quilo de mel seja
- produzido. Essa saga toda me faz pensar na velha história contada desde que nos conhecemos
- por gente: de grão em grão, a galinha... Certo, estamos falando de abelhas. Mas a lógica serve.
- Passei o primeiro mês do ano da mesma forma que a maioria das pessoas: brincando
- (talvez um pouco sério demais) que janeiro estava sendo um mês interminável. E realmente foi.
- Mas se paro e penso que, em contrapartida, estamos seguidamente reclamando do quão rápido
- o tempo passa, um mês duradouro não seria motivo de festa?
- Nos últimos anos, aprendemos a nos acostumar com diversas ideias: a efemeridade e a
- descartabilidade das coisas, o que consequentemente resulta em vivências rápidas e soluções
- imediatas. Pergunte para qualquer jovem se ele está disposto a trabalhar incan...avelmente para
- produzir anualmente apenas 5 gramas de determinada coisa, que provavelmente haverá cara
- feia ou desistência. Estamos mal-acostumados com o processo das coisas – sim, ele continua
- existindo. Ninguém produz mel do dia pra noite.
- Dando continuidade aos ditados populares, tem aquela frase que diz que um dia
- entenderemos o porquê de tudo ter demorado o tempo que precisou demorar. Mas a questão
- toda é: estamos preparados para esperar esse tempo, seja ele qual for? E se esperarmos, quando
- “o mel” enfim ficar pronto, ainda teremos vontade de comê-lo, ou teremos desistido na metade
- do caminho? Em terra de ansioso, quem cultiva a paciência é rei.
(Disponível em: www.gauchazh.clicrbs.com.br/pioneiro/colunistas/pedro-guerra/noticia/2024/02/nao-estou-falando-de-abelhas – texto adaptado especialmente para esta prova).