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Leia o texto e, em seguida, responda às questões 1, 2 e 3
Do tempo e do vento
(Por Ana Quitéria Homero Fonseca)
Coisas inerentes à existência do ser vivente são o tempo e o vento. Além de nome de obra literária e minissérie de TV, são realmente inspiradoras e, talvez por isso mesmo, batizaram criações humanas. Os seres viventes apreciam o vento. E o tempo é o melhor remédio para tudo, já diz o clichê. Os clichês nascem das verdades atávicas. Se não fossem verdades resistentes ao tempo, não seriam repetidos à exaustão e não seriam clichês. Clichês se fazem com o tempo.
O vento, sempre digo, é – depois das costas das mãos – o primeiro socorro no enxugamento das lágrimas. Chega antes do tempo, que, não horas mais impróprias, parece fazer de propósito a desfeita de passar devagar. O vento é companheiro de todos por onde cisma de soprar. Diferente do sol, de quem se pode fugir debaixo de uma marquise ou de uma sombrinha e que desaparece como se fosse dormir, o vento quando chega, é quase sempre bem-vindo, ao menos nessas terras de calor e sudorese. O vento seca suores.
O tempo tem o seu próprio tempo e por ser muito antigo, sabe bem das coisas. Viu tudo e todos que a terra já comeu e que, com o tempo, comerá. Chega no tempo certo, sempre na hora certa. Quando exatas e felizes, coincidências; quando tristes, fatalidades. O tempo assiste ao vento fazer e desfazer montanhas.
Não tente com muito afinco aparar o vento. Vire-se de banda e deixe-o passar raspando, ou ele carrega tudo, guarda-sóis, chapéus, saias, e se estiver realmente como vontade, telhados e casas. Dizem que até vacas já foram carregadas pelo vento.
Não tente com muito afinco parar o tempo. Dê de ombros e deixe-o passar macio, ou ele carrega tudo, a beleza de envelhecer, a felicidade, a dignidade, e se não for bem-aproveitado, as lembranças, os amigos. Fala-se muito de amores extintos pelo tempo.
(Coletânea Antônio Maria de Crônicas/
Os dois últimos parágrafos do texto ilustram um paralelismo sintático. Todas as explicações fornecidas a seguir confirmam esse recurso, com uma única EXCEÇÃO. Indique-a:
O período que inicia cada parágrafo é simples, havendo um adjunto adverbial entrecortando a locução verbal. Uma versão na ordem direta seria: “Não TENTE (A)PARAR o vento/o tempo COM MUITO AFINCO.”
O segundo período de cada parágrafo assim se apresenta: inicialmente há uma frase constituída de duas orações coordenadas aditivas, seguindo-se uma outra declaração por meio de uma oração coordenada alternativa, na qual se insere ainda uma adverbial.
Em ambos os parágrafos, verifica-se o recurso de indeterminação do sujeito no período final, com uma pequena diferença: no primeiro dos dois parágrafos, a indeterminação é marcada pelo emprego do verbo no plural, e no segundo, na combinação do verbo com a partícula SE.
Nos dois parágrafos, apresenta-se o verbo CARREGAR seguido do objeto direto e logo após o aposto, cuja função é de ampliar a informação expressa pelo demonstrativo TUDO.
Os constituintes introduzidos pela preposição POR em: “Dizem que até vacas já foram carregadas PELO vento” e “Fala-se muito de amores extintos PELO tempo.”, assumem função sintática de agente da passiva.